Recentemente, conversava com uma psicóloga experiente, a quem devo parte de minha formação como profissional. Falávamos sobre a importância de distinguir os sentimentos e sobre o papel da linguagem nesse trabalho: as palavras podem esclarecer uma experiência ou tornar ainda mais difícil compreendê-la.
Amor, paixão, afeto, desejo, gratidão: não é necessário encerrar cada palavra numa definição definitiva, mas encontrar distinções que façam sentido na experiência de quem fala. Quando tudo recebe o mesmo nome, algo pode se perder. Às vezes, resta a sensação de ser estrangeiro a si mesmo: “não sei o porquê nem o que é, apenas me sinto assim”.
Nomear pode ajudar a dar contorno ao que se vive, sem esgotá-lo. Podemos acreditar que sentimos uma coisa e, ao falar e escutar, descobrir outra combinação de sentimentos. É uma das passagens pelas quais a linguagem se encontra com o trabalho do autoconhecimento.
A conversa me remeteu ao filósofo francês Louis Lavelle. Em A Consciência de Si, suas reflexões sobre amor, desejo e afeto me dão aquilo que procuro num escritor: palavras capazes de tornar perceptível uma experiência que eu não saberia formular do mesmo modo.
Penso também no comentário de Thomas Ogden, em O que significa estar vivo, sobre uma análise conduzida por um colega:
É uma análise que eu não poderia ter criado. Desejaria tê-la criado, mas devo aceitar o fato de que nenhum analista desenvolve uma análise com seu paciente da mesma maneira que outro.
Sinto algo semelhante diante de Lavelle: gostaria de ter escrito o que ele escreveu. Sua reflexão me serve como um farol, sem antecipar as compreensões de quem chega ao consultório. É a experiência de cada pessoa que dará às palavras seu alcance e seus limites.
Desejo e posse
No capítulo dedicado ao amor, Lavelle questiona a identificação entre amar e desejar aquilo de que estamos privados. Se o amor fosse apenas movimento em direção a uma conquista, o que restaria quando ela se realizasse?
Pensa-se com demasiada frequência que o amor é um movimento violento que nos leva para um objeto do qual estamos privados. Confunde-se, então, o amor com o desejo. […] Os que conhecem melhor o amor não são aqueles cujo desejo é mais forte, pois a posse os decepciona, mas os que sabem abraçar, na posse, a colheita mais rica.
Leio a “posse”, nesse trecho, como a passagem da espera à presença do vínculo. Interessa-me a pergunta que essa linguagem abre: consigo reconhecer o amor quando ele deixa de ser apenas falta, incerteza ou expectativa? O sossego de uma relação pode ter uma riqueza que a intensidade do desejo não permite perceber.
Amor e afeto
Lavelle também distingue o amor de sentimentos como confiança, estima e admiração. Ao mesmo tempo, reconhece o valor próprio desses vínculos:
Fala-se por vezes de amor onde o que existe é confiança, retidão, estima e admiração. Tais sentimentos não substituem o amor. […] E, no entanto, o afeto, a sinceridade, a perfeita confiança que reinam entre dois seres são com frequência suficientes para levar cada um deles à altura das melhores partes do outro.
A distinção me interessa porque impede que relações diferentes sejam comprimidas numa palavra só. Na clínica, porém, ela precisa permanecer uma pergunta. A formulação filosófica de Lavelle não estabelece um critério universal para decidir se alguém ama ou se uma relação é saudável.
Seu ideal de comunicação total entre duas pessoas pede também uma leitura cuidadosa: não o tomo como exigência de ausência de segredos ou de renúncia à própria intimidade. O valor dessa leitura está em afinar a atenção aos vínculos, preservando a singularidade de quem os vive.
A leitura e a escuta
É preciso tempo para uma leitura assim. Os conceitos precisam ser “desembrulhados”, aproximados de experiências, interrogados. Não basta reconhecer o significado habitual de uma palavra; é preciso descobrir o que ela consegue mostrar e o que deixa na sombra.
Isso alcança meu pensamento clínico por meio da humildade que exige. Amor, bondade e beleza excedem nossa capacidade imediata de apreensão. A reflexão sobre eles participa de minha formação e de minha compreensão de mim mesmo, sem que essa formação, por si só, assegure resultados no tratamento.
A vida interior não se deixa encerrar num vocabulário. A clareza conceitual e linguística é um dos aspectos que considero fundamentais no desenvolvimento do psicoterapeuta, justamente porque exige que o trabalho de compreender permaneça aberto.
Não concebo minha prática sem um diálogo permanente com a filosofia, a literatura, a música e as artes. Vejo nessa convivência uma fonte de perguntas e de atenção à experiência humana. O fato de não podermos abarcar tamanha vastidão numa única mente não nos dispensa de reconhecê-la — nem de continuar aprendendo a escutar.