TEXTOS E LEITURAS

Os fundamentos da clínica e o problema da verdade

Há muito tempo reflito sobre o que antecede a escolha de uma abordagem terapêutica. A formação em psicologia nos apresenta diferentes maneiras de compreender o sofrimento e de trabalhar com ele. Podemos nos aproximar da terapia cognitivo-comportamental, da psicanálise e de outras perspectivas, cada qual com suas diferenças internas. Minha inquietação, porém, começa um passo antes.

Que concepção de ser humano e de realidade assumimos ao adotar uma teoria? Como Freud, Frankl, Beck e tantos outros entendem a vida? E como essas concepções chegam ao encontro com o sofrimento de uma pessoa concreta?

Das respostas depende algo do modo como atendemos, mas também de como compreendemos nossa própria existência. Uma teoria pode se tornar uma lente tão familiar que deixamos de perceber seus pressupostos. Por isso me parece necessário interrogá-los, inclusive quando já encontramos uma orientação de trabalho.

O que uma escolha pressupõe

Tomemos uma pergunta: existe vida após a morte? A resposta pode modificar o sentido atribuído à morte, à doença, ao prazer e à responsabilidade moral. Para mim, a linguagem de corpo, alma e espírito tem valor filosófico e religioso: aponta para uma realidade cuja compreensão considero apenas parcial.

Isso não significa que crer ou não na continuidade da vida determine, por si só, uma teoria da pessoa. Tampouco transforma uma convicção religiosa em constatação científica. O que desejo assinalar é que tais perguntas participam de nossa visão de mundo e merecem ser reconhecidas como tal.

Na clínica, esse reconhecimento inclui compreender que as convicções do profissional e as de quem o procura podem ser diferentes. A reflexão sobre meus fundamentos exige também atenção ao lugar que lhes dou na escuta, para que uma resposta pessoal não seja tomada como resposta antecipada à vida de outra pessoa.

Considero difícil estudar um autor durante anos, trabalhar com seus conceitos e permanecer indiferente à influência que exercem. Não nos tornamos simplesmente aquilo que lemos, mas nossas leituras participam da formação de nossos critérios, de nossas perguntas e até do que deixamos de perceber.

Durante a faculdade, ouvi muitas vezes que a escolha de uma abordagem era uma questão de afinidade. Essa experiência me deixou uma pergunta: o que sustenta a própria afinidade? Identificar-me com uma teoria pode iniciar um percurso; compreender seus fundamentos é parte do trabalho de assumi-la com responsabilidade.

Verdade e percepção

Em dois trabalhos da graduação, um sobre técnicas de entrevista e outro sobre um estudo de caso, procurei formular o problema que mais me inquietava: nosso pensamento pode conhecer algo da realidade ou permanece encerrado em suas próprias construções?

Não sou filósofo de ofício. Minha pergunta nasce do trabalho clínico, mas me conduz à filosofia. Ela envolve a separação entre sujeito e mundo que encontro em leituras de Descartes e o problema kantiano da coisa-em-si. Não pretendo resolver essas tradições num ensaio; quero explicitar a dificuldade que me levou a estudá-las.

É preciso distinguir os termos: Kant não reduz os objetos da experiência a ilusões nem simplesmente nega a possibilidade de conhecimento objetivo. Na Crítica da Razão Pura, a limitação do conhecimento das coisas em si convive com a defesa da realidade empírica. Minha objeção se dirige à conclusão, que não decorre automaticamente dessa distinção, de que só haveria versões privadas e incomunicáveis do real.

A expressão “minha verdade” ajuda a perceber o problema. No uso cotidiano, pode significar uma perspectiva ou o testemunho de uma experiência. Assim entendida, ela não nega a verdade. A dificuldade aparece quando passa a significar que toda afirmação vale apenas para quem a enuncia, sem qualquer possibilidade de confronto com algo comum.

Se afirmo que não existe verdade alguma, apresento essa própria afirmação como verdadeira? A pergunta não resolve toda a discussão filosófica, mas mostra por que distinguir percepção e realidade me parece indispensável. Reconhecer a singularidade de uma experiência não exige tornar equivalentes todas as interpretações que fazemos dela.

Encontrei apoio para pensar essas questões nos cadernos de Joseph Maréchal, O Ponto de Partida da Metafísica, em A Ascensão Vertical, de Wolfgang Smith, e em Visões de Descartes, de Olavo de Carvalho. São referências de meu percurso filosófico, sem esgotar o debate nem constituir, por si mesmas, evidência sobre a eficácia de uma prática clínica.

A pergunta pode começar com algo simples: uma maçã que pego, vejo e provo. Conhecê-la parcialmente não equivale a inventá-la. Essa imagem me ajuda a pensar a diferença entre reconhecer os limites do conhecimento e desistir de sua relação com a realidade. A vida interior de outra pessoa exige ainda mais cuidado, porque não se oferece à observação como um objeto sobre a mesa.

Uma busca que também implica o psicólogo

Na clínica, trabalhamos com relatos, lembranças, fantasias, sentimentos e interpretações. Tudo isso tem realidade na vida psíquica, sem que cada interpretação corresponda aos acontecimentos tal como ocorreram. Uma percepção pode participar do sofrimento de alguém; isso não torna o sofrimento falso.

Ao mesmo tempo, a interpretação do psicólogo também pode falhar. O compromisso com a verdade exige colocá-la à prova, escutar o que a contraria e reconhecer o que ainda não sabemos. Não me parece possível sustentar esse compromisso se apenas o paciente tiver de rever sua compreensão da realidade.

Meu receio é que a clínica se contente com a substituição de uma narrativa por outra apenas porque a segunda parece mais conveniente. Desejo preservar a pergunta pelo que se passa, pelo que foi vivido e pelo que ainda não pôde ser reconhecido. Essa pergunta inclui a realidade dos vínculos e das condições de vida, além das construções de sentido de cada pessoa.

Conversei sobre isso com uma psicóloga cuja experiência respeito, justamente para colocar minhas ideias à prova. Ela me ofereceu uma imagem: a verdade como horizonte para o qual tendemos, sem alcançá-lo plenamente. A imagem permite reconhecer a possibilidade de compreender algo aqui e agora, sem confundir essa compreensão com a posse do todo.

Em minha perspectiva religiosa, a verdade plena pertence a Deus. Nossa condição pede humildade e esforço de conhecimento. Encontrar uma parcela de verdade não nos autoriza a encerrar a investigação; pode, ao contrário, tornar mais nítido o que ainda precisa ser examinado.

No Fédon, de Platão, Símias propõe apoiar-se no argumento humano mais firme, como numa embarcação para atravessar a vida, quando não se dispõe de uma palavra divina que ofereça maior segurança. Leio nessa passagem um convite à perseverança da razão diante dos próprios limites. Para mim, ele alcança também a reflexão teológica e a busca do Supremo Bem.

Volto, então, à inquietação inicial: como pensar a clínica sem interrogar seus fundamentos e sem um compromisso sincero com a busca da verdade? Não espero uma resposta que elimine todas as dúvidas. Espero que a pergunta permaneça viva, inclusive quando exigir de mim a revisão das ideias com as quais aprendi a trabalhar.