TEXTOS E LEITURAS

O custo das telas: tempo, vínculos e vida interior

Vício em telas · Parte 3 de 4

O custo de permanecer na tela nem sempre aparece durante o uso. Às vezes é percebido depois: uma conversa ficou pela metade, o sono foi adiado, um projeto continua sem começar. A parte anterior examinou o design que favorece a permanência. Aqui, a pergunta é o que deixa de encontrar espaço quando essa permanência excede o que desejávamos.

O tempo e aquilo que caberia nele

Uma hora por dia corresponde a 365 horas ao longo de um ano. É apenas uma conta, não uma medida de tempo perdido. A tela também permite trabalhar, aprender, descansar e manter vínculos. O valor de uma atividade não pode ser decidido apenas pela presença de um aparelho.

Mas a conta pode ajudar a tornar visível um uso que se espalha em pequenos intervalos. O que você gostaria de preservar nesse tempo? Uma leitura, uma conversa, o descanso? A questão não exige transformar cada minuto em produtividade. Pode incluir justamente ter tempo sem tarefa.

Ao discutir o princípio de realidade, Freud (1911) examinou a possibilidade de adiar a satisfação e considerar as condições do mundo. Essa formulação oferece uma leitura para a tensão entre gratificações imediatas e projetos que pedem espera. Não demonstra que o uso de aplicativos destrua essa capacidade; convida a pensar como ela encontra espaço na vida cotidiana.

Os vínculos interrompidos

A pesquisa chama de technoference a interferência da tecnologia nas interações. McDaniel e Drouin (2019) acompanharam 173 casais por 14 dias. Nos dias com mais interrupções relatadas, os participantes também descreveram pior qualidade das interações, mais conflitos relacionados à tecnologia e pior humor.

Beukeboom e Pollmann (2021), em dois estudos transversais, encontraram associações entre uso do celular durante interações com o parceiro, sentimentos de exclusão, menor intimidade e menor satisfação relacional. Os resultados sugerem aspectos a observar, mas não provam, isoladamente, que o aparelho tenha causado os problemas do relacionamento.

Clinicamente, interessa como a interrupção é vivida: o outro sente que perdeu sua atenção? Há um acordo sobre as necessidades de trabalho? O aparelho aproxima pessoas distantes ou ocupa uma conversa que ambos desejavam ter? Uma regra idêntica para todos não responde a essas diferenças.

Também nas relações com os filhos, observar e conversar é mais cuidadoso do que presumir o que a criança conclui. Uma checagem não define a qualidade de um vínculo. A repetição da indisponibilidade, porém, pode ser um motivo para rever como se organiza o tempo compartilhado.

Espaço para a vida interior

Há pensamentos que aparecem enquanto caminhamos, lavamos a louça ou deixamos uma questão repousar. Em um experimento, Baird et al. (2012) observaram que uma pausa com uma tarefa pouco exigente favoreceu o desempenho posterior em problemas criativos apresentados antes. O estudo trata de uma condição específica de laboratório; não comprova que todo silêncio produza criatividade ou autoconhecimento.

A aproximação com a vida cotidiana é uma reflexão: quando cada intervalo recebe um novo conteúdo, podemos ter menos ocasiões para perceber o que nos atravessa. Uma conversa reaparece na memória, um incômodo ganha palavras, um interesse ainda impreciso encontra lugar. Nada disso precisa ocorrer sob comando.

O desejo também pede espaço para ser reconhecido. Há diferença entre querer algo porque acabou de aparecer e perceber um interesse que persiste ao longo do tempo. As duas experiências podem se misturar. Escutá-las exige alguma disponibilidade para acompanhar o próprio pensamento, inclusive quando ele não oferece uma resposta imediata.

Estar sem tela, por si só, não garante essa disponibilidade. O silêncio também pode ser difícil, e preocupações podem continuar ocupando a mente. Não se trata de produzir uma vida interior ideal, mas de notar se o uso ajuda a viver certas experiências ou se passou a interrompê-las repetidamente.

Para continuar

Reconhecer um custo permite escolher por onde começar. A última parte reúne pequenas práticas para mudar a relação com o celular e discute quando uma conversa profissional pode fazer sentido.

Na série Vício em telas: 1. Cérebro e atenção · 2. Design · 3. Custos · 4. Práticas.

Israel Machado é psicólogo clínico em Passo Fundo, RS. CRP 07/43950. Atendimento individual com orientação psicanalítica, presencial e online.

Referências

BAIRD, B. et al. Inspired by distraction: mind wandering facilitates creative incubation. Psychological Science, v. 23, n. 10, p. 1117–1122, 2012. DOI: 10.1177/0956797612446024.

BEUKEBOOM, C. J.; POLLMANN, M. Partner phubbing: why using your phone during interactions with your partner can be detrimental for your relationship. Computers in Human Behavior, v. 124, 106932, 2021. DOI: 10.1016/j.chb.2021.106932.

FREUD, S. Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental [1911]. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969. v. 12.

McDANIEL, B. T.; DROUIN, M. Daily technology interruptions and emotional and relational well-being. Computers in Human Behavior, v. 99, p. 1–8, 2019. DOI: 10.1016/j.chb.2019.04.027.

Os estudos de relacionamentos citados identificam associações. O experimento sobre incubação criativa não examinou autoconhecimento nem uso de smartphones. As aproximações com a vida interior são reflexões clínicas e ensaísticas.