
Eu não conhecia o poder do cinema até a noite em que assisti a Sonata de Outono (1978), de Ingmar Bergman. Durante anos recebi, nos meios de psicologia, recomendações de filmes que retratariam os temas estudados. Diversas vezes preparei a pipoca, liguei a televisão e não consegui permanecer diante dela. Cheguei a pensar que não era dado ao cinema.
Minha primeira tentativa com Bergman também fracassou. Alguns anos antes, abandonei Morangos Silvestres nos primeiros minutos, incomodado com o ritmo, o preto e branco e um texto que me parecia filosófico demais.
Foi um comentário do professor Ibrahim Amjad sobre uma leitura de Luz de Inverno feita por Dom Bernardo Bonowitz que me levou a tentar outra vez. Tenho o antigo abade na mais alta conta. Retornei como quem aceita uma segunda chance, mais para si mesmo do que para o diretor. Vi a Trilogia do Silêncio e O Sétimo Selo, grandes filmes todos. Nenhum, porém, me atingiu como Sonata de Outono.
Este ensaio comenta cenas centrais e o desfecho do filme.
A filha que espera
Charlotte, pianista de renome, aceita o convite da filha Eva e vai visitá-la depois de sete anos sem vê-la. O enredo parte desse reencontro. O que se abre é uma das anatomias mais precisas que já vi de uma relação difícil entre mãe e filha: a mãe ausente e a filha que nunca deixou de esperá-la.
Charlotte é encantadora, culta e vaidosa. Seu amor parece seguir o ritmo de suas apresentações: preparado, executado, aplaudido e encerrado. Eva conta que, quando criança, estudava os humores da mãe e corrigia o próprio corpo, o cabelo e a postura para caber no gosto materno.
Há crianças que aprendem a se tornar especialistas no outro e estrangeiras em si mesmas. Em Eva, essa experiência conserva uma esperança que não envelhece: a de que um dia a mãe finalmente olhe.
A cena do piano condensa essa espera. Eva toca um prelúdio de Chopin como quem oferece um presente. Charlotte elogia e depois se senta para mostrar como entende a peça. Sua execução é superior, seu comentário é inteligente; mas o gesto da filha pede algo que a excelência musical não pode fornecer.
O presente é tratado como audição. No rosto de Eva, enquanto observa a mãe tocar, leio adoração e aniquilamento. Charlotte recebe a música pela exigência de perfeição e parece não alcançar a oferta que a acompanha. A crueldade da cena está em poder acontecer sem uma intenção explícita de ferir.
O inventário da noite
À noite vem a confrontação. Eva apresenta um inventário guardado por décadas, com a precisão de quem passou a vida redigindo mentalmente esse discurso. É o acerto de contas que tantas pessoas repetem na imaginação sem encontrar ocasião de pronunciá-lo.
Leio seu ódio como uma forma que o amor tomou para não morrer. Eva acusa para ser vista; cada golpe guarda também um pedido. Mas a forma do ataque dificulta que o pedido seja recebido. Charlotte se defende, e sua defesa revela a própria infância sem carinho.
O filme não a absolve com isso. Mostra a corrente das gerações, o dano que passa de mãe para filha como uma herança que ninguém assinou. Compreender essa continuidade pode ampliar a percepção do conflito sem apagar a responsabilidade de cada uma.
Há ainda Helena, a outra filha, gravemente doente, cuja presença na casa incomoda Charlotte. Enquanto Eva articula a acusação em palavras, Helena chama pela mãe. É a mesma necessidade, numa filha vestida de eloquência, noutra reduzida ao grito. Charlotte parte, deixando mais uma vez a distância no lugar do encontro.
O confronto não produz o reconhecimento que Eva esperava. Mas o filme não termina apenas no ressentimento. Ela escreve à mãe, reconhece a própria dureza e manifesta a esperança de que ainda possam se encontrar.
Nada garante que a carta será recebida como precisa. Seu valor está no movimento que contém. Vejo nela a possibilidade de um trabalho de perdão: não esquecer nem dar razão, mas procurar uma relação com o passado em que a dívida não tenha a última palavra.
Essa possibilidade não torna a reconciliação uma obrigação. Elaborar o sofrimento pode incluir uma separação necessária. No consultório, o destino de cada vínculo precisa encontrar espaço para ser pensado; não pode ser decidido de antemão por um ideal de família ou por uma exigência de perdão.
O espelho e a reparação
Liv Ullmann, como Eva, e Ingrid Bergman, como Charlotte, dão corpo a essa complexidade. Foi a única colaboração de Ingrid com Ingmar Bergman. Mas falo aqui como psicólogo e também como pai: o valor mais alto do filme está na força com que oferece um espelho do ser humano.
Diante dele, pergunto que inventário nossos filhos podem estar redigindo em silêncio e quais ausências praticamos vestidos de presença. Pergunto também o que acontece quando um pai ou uma mãe consegue ouvir aquilo de que até então se defendia.
A dureza do filme não fecha toda possibilidade de reparação. Reconhecer um dano não o desfaz, mas pode alterar a maneira de continuar o vínculo. A escuta que faltou ontem talvez se torne possível hoje, sem a garantia de que o outro possa ou queira recebê-la.
É por aí que compreendo o caráter universal de certas obras. Elas apresentam possibilidades contidas em nós e nos permitem enxergar caminhos já tomados, reparações ainda possíveis e escolhas que permanecem abertas. O espelho não decide por quem olha. Oferece a chance de ver, com maior honestidade, para onde se está indo.