Este foi um dos primeiros livros que li após uma virada na busca pelo conhecimento — na verdade, após encontrar o caminho e iniciar a luta por perseverar nele. Recordo de três ou quatro parágrafos especialmente marcantes, o principal deles logo de início, quando Júlia, a protagonista, recebe os conselhos do pai enquanto contempla, encantada, Vítor d’Aiglemont, coronel de Napoleão:
Pois bem, minha filha, escuta-me! As moças com frequência criam imagens nobres, deslumbrantes, figuras totalmente ideais, e forjam ideias quiméricas acerca dos homens, dos sentimentos, do mundo; depois atribuem inocentemente a um caráter as perfeições que sonharam, e entregam-se a isso; amam no homem que escolheram essa criatura imaginária; porém, mais tarde, quando não há mais tempo de livrar-se do infortúnio, a enganadora aparência que embelezaram, seu primeiro ídolo, transforma-se enfim num esqueleto odioso. Júlia, preferiria saber-te apaixonada por um velho do que ver-te amando o coronel. Ah! se pudesses transportar-te dez anos adiante na vida, reconhecerias o valor de minha experiência. Conheço Vítor: sua alegria é uma alegria sem espírito, uma alegria de caserna; ele é perdulário e sem talento. É um desses homens que o céu criou para fazer e digerir quatro refeições por dia, dormir, amar a primeira que aparece, e combater. Ele não entende a vida. Seu bom coração, pois ele tem bom coração, talvez o leve a dar seu dinheiro a um infeliz, a um companheiro; mas ele é negligente, mas ele não é dotado daquela delicadeza de coração que nos faz escravos da felicidade de uma mulher; mas ele é ignorante, egoísta… Há muito mais.
A esta altura Júlia tem vinte anos. O romance faz um arco dos vinte aos trinta: quando ela ama verdadeiramente outro homem, já está comprometida com Vítor, com os costumes e com uma filha pequena, e renuncia à nova tentativa amorosa. Balzac trata do amadurecimento por meio de um panorama que permite não só a comparação, mas a visão da própria transição: do enamoramento encantado — provocado pelo brilho da farda, da posição, das ovações na revista militar diante das Tulherias, em abril de 1813 —, ou seja, dos aspectos exteriores que mais se aproximam da paixão do que do amor, para a entrega que só mais tarde se vê, quando já não há lugar para ela.
O que me chamou a atenção desde a primeira leitura, e até hoje se repete, é a capacidade de distinguir estados mentais e sentimentos, dito com muita simplicidade, lidar melhor com a vida. Penso nas confusões interiores que tornam as situações imensamente complexas, colocando o sujeito numa barafunda aparentemente sem saída. Pensamentos e sentimentos contrários se sobrepõem — o desejo de amar e ser amada, de constituir uma família, de ter algum status social; o medo de não dar certo; o conhecimento das próprias falhas e limitações; as dificuldades do dia a dia — e o que sobra é um estado de dúvida.
Quando em análise acontece isso de ver claramente — de conseguir separar uma coisa de outra e então poder decidir o que fazer com cada uma delas —, o alívio e a felicidade, mesmo em meio a alguma percepção dolorosa, são consequências naturais. Lembro de uma definição de inteligência que li certa vez: inteligência é a capacidade de perceber a verdade. Quando ela opera, é isso o que acontece. Pode ser algo muito simples, como perceber que 2 + 2 = 4. Qualquer professor sabe que o máximo que pode fazer por seus alunos — e todo o seu esforço, no fundo, gira em torno disso — consiste em fazer ver: expor uma matéria e aguardar que a inteligência do aluno opere, que ele mesmo perceba a verdade de uma soma ou a lógica da sintaxe do idioma que fala.
No consultório, das maneiras e nos contextos mais diferentes que se possa imaginar, esse fazer ver — ou melhor, esse criar oportunidades para que algo seja visto — é um análogo do tornar consciente o inconsciente. A estrutura do setting — dias e horários fixos, valores, associação livre, perguntas abertas, as regras fundamentais que compõem a técnica — permite justamente que o analisando faça distinções, entenda e, mais do que isso, veja os seus sentimentos e ideias, ligue os seus sofrimentos à sua história de vida pregressa e atual; em uma palavra: que olhe para si mesmo, para o conjunto altamente complexo que o compõe e que se unifica naquilo que chamamos de eu, e possa ser mais livre para decidir o que fazer consigo e com sua vida.
Júlia não tinha essa clareza — algo típico da idade — e o pai fracassou em alertá-la: o alerta era verdadeiro, mas não pôde atingi-la o suficiente para que reconsiderasse, para que visse o cenário e o futuro que se apresentava. Ela comete erros que mais tarde cobram o seu preço. Não a condeno, de maneira alguma: aprende-se sofrendo, e é por isso mesmo que existe uma sabedoria acumulada, nascida da experiência de vida. Aliás, o que não vem da experiência? E qual conhecimento não está obrigado a se referir a ela? Porque tu és experiência de vida e à experiência de vida tornarás. Os conceitos, os livros, A Mulher de Trinta Anos, servem para clarear a realidade: Balzac nos empresta os olhos para que vejamos, num parágrafo, a condensação de uma dinâmica que revela uma fase da vida — e uma possibilidade aberta a todos.
Quando o arco se completa e a Júlia de trinta anos retorna à condição de amor (ou de paixão), pode ponderar com a sabedoria prática de quem dissesse: acha que vou entregar meu coração ao primeiro patife que aparecer? Não mais.
A utilidade, a função de um escritor é esta: revelar de um jeito memorável o que nós mesmos não seríamos capazes de dizer. Isso importa porque aquilo que não tem palavras facilmente se torna causa de confusão interior. Os grandes escritores — Tolstói, Dostoiévski, Balzac, Manzoni, Hesse, cada um em seu grau — desenvolvem e fortalecem a inteligência: colocam-nos diante de verdades para que as possamos ver. De posse de imagens e histórias consistentes e profundas, e das percepções que elas provocam, podemos transformá-las em vida dentro de nós — e fazer algo melhor com a nossa própria: não sermos estranhos a nós mesmos, não nos enredarmos na confusão do mundo.
Depois de escrever estas linhas, encontrei uma fala magistral do professor Olavo de Carvalho, algo que eu mesmo gostaria de ter dito, pois explica e sintetiza o que estou tentando dizer no ensaio:
Imagine duas situações extremas: a treva total e a luz. A treva total é inacessível, e a luz total também — nós estamos sempre no meio, entre as duas coisas. Imagine que por trás dessa opacidade, na qual você não está totalmente cego, porque alguma coisa você sabe, alguma informação você tem, há uma treva maior ainda, absolutamente inalcançável. Então, essa forma simbólica que você vai fazer dará um vislumbre dessa luz através do seu reflexo nessa forma simbólica organizada — pode ser uma música, pode ser um quadro, pode ser um livro. É isso que nós estamos fazendo o tempo todo. Existe uma situação humana chamada leitura: essa situação aparece ligeiramente confusa, opaca, e você quer que alguém descubra por trás dela algum padrão, algum esquema, alguma forma, por trás da qual a luz possa aparecer como que numa filigrana.

Este esquema visual é ele mesmo um símbolo que nos ajuda a nos situarmos dentro do conjunto da nossa vida no que se refere ao papel e importância da literatura e outras formas simbólicas.