Diário de um Pároco de Aldeia — Bresson / Bernanos

Após sete filmes seguidos de Ingmar Bergman, que pretendo comentar mais adiante, resolvi mudar de diretor, e também de atores, para refrescar a percepção. Apesar de todo o brilhantismo de Liv Ullmann, eu não aguentava mais ver o mesmo rosto e o mesmo penteado; algo semelhante ao que me ocorreu com Uma Thurman em alguns filmes de Tarantino.

Curiosamente, parece ser esse um dos motivos da separação entre Johan e Marianne em Cenas de um Casamento: um certo fastio da parte dele, embora não se possa resumir tudo a isso. Se os bons filmes e livros servem de espelho, como já disse anteriormente, nada mais natural do que sentir também a necessidade do distanciamento que aparece entre os personagens.

Mas o assunto de hoje é outro.

Dou atenção especial a dois momentos de Diário de um Pároco de Aldeia (1951), de Robert Bresson, baseado no romance de Georges Bernanos. O primeiro é a carta da condessa, transcrita no diário logo após o seu velório. Ela havia perdido um filho pequeno muitos anos antes, e o que o filme mostra a partir daí dispensa qualquer vocabulário técnico: é o retrato exato do que acontece quando um luto não se faz. A dor congela e vira identidade. A amargura da condessa não era tristeza; era um pacto. Manter a ferida aberta era o seu modo de manter o filho, como se aceitar a perda equivalesse a abandoná-lo uma segunda vez. Por isso endureceu contra todos, contra o marido, contra a filha e, sobretudo, em silêncio, contra Deus. A conversa com o jovem pároco, aquela que Chantal ouviria às escondidas, não é um consolo; é um combate. O padre, doente e desajeitado, faz o que ninguém à sua volta ousara: nomeia a guerra secreta que a condessa travava havia décadas. Há um gesto que condensa a cena, quando ela atira ao fogo o medalhão que guardava a lembrança do menino, último movimento de desespero antes da rendição. O que ela encontra do outro lado, a carta diz melhor do que qualquer resumo:

Caro padre, a lembrança sem esperança de uma criança pequena me havia isolado de tudo em uma solidão aterrorizante, e parece que foi outra criança quem me tirou dela. Espero não ferir seu orgulho ao chamá-lo de criança. O senhor é uma, e que Deus assim o conserve para sempre. Pergunto a mim mesma como o senhor o fez — ou melhor, deixei de me perguntar. Está bem. Eu não acreditava que a resignação fosse possível, e de fato não é resignação o que me tomou. Não estou resignada — estou feliz. Não desejo nada. Precisei lhe dizer estas coisas esta mesma noite. Não voltaremos a falar delas, não é? Nunca. É uma boa palavra, “nunca”. Sinto que ela exprime, além de qualquer palavra, a paz que o senhor me deu.

Note-se a precisão da condessa: “não é resignação o que me tomou”. A resignação ainda é uma forma de guerra; é a revolta de dentes cerrados, a submissão de quem se dobra sem se entregar. Entre a revolta e a paz existe essa estação intermediária, e muita gente passa a vida inteira nela, cumprindo os dias com o coração em greve. A condessa atravessou-a numa única noite: deixou de exigir que o real não tivesse sido, devolveu o filho a Deus e descobriu, espantada, que não desejava mais nada. A carta é endereçada ao padre; logo em seguida vem a notícia do falecimento. O filme não trata a morte como tragédia: a síntese de uma vida coube naquela noite, e o que veio depois já não podia acrescentar nem tirar nada.

(Esta fala do filme, do livro, na verdade, contém uma verdade profunda e um mistério um tanto insondável: algumas vezes damos a paz que não temos. Isso aconteceu com o padre e isso também acontece no consultório, isso de estar num momento difícil da vida pessoal e mesmo assim conseguir ajudar o outro a alcançar aquilo que nós mesmos não temos. É o milagre das mãos vazias. É maravilhoso.)

A título de contexto: Chantal, filha da condessa, uma jovem desafiadora, ouve às escondidas a conversa entre a mãe e o padre e depois o acusa de forçá-la a se livrar das lembranças do filho, e até de ameaçá-la falando de separação eterna. Basta ver o filme, ou ler a carta, ou ter ouvido a conversa, para saber que não foi nada disso. Mas, dado o falatório na cidade, haverá uma reunião com os superiores.

O que se espera é que a carta seja apresentada e que Chantal, junto com os demais cidadãos, saia humilhada. Não é o que acontece. Num monólogo reflexivo, enquanto prepara sua refeição, o amadurecimento do jovem padre se apresenta.

Não fui nem tentado a falar da carta. Voltei à reitoria. Em vez de sofrer, senti como se um grande peso houvesse sido erguido. Aquele encontro com o pároco de Torcy foi como um ensaio para os que teria em breve com meus superiores. Descobri, com algo próximo da alegria, que não tinha nada a dizer. Por dois dias, havia temido ser acusado de algo que não fizera — e a honestidade me teria impedido de permanecer em silêncio. Mas agora, podia deixar que cada um julgasse minhas ações por si mesmo. Senti também grande alívio ao pensar que a senhorita Chantal poderia ter se enganado sinceramente quanto ao verdadeiro sentido de nossa conversa, que ela pode muito bem ter ouvido mal.

O detalhe decisivo é que o padre tem a prova. A carta está em suas mãos; bastaria apresentá-la para sair vindicado e ver os acusadores confundidos. A grandeza do gesto não está em suportar a injustiça por falta de recursos, mas em possuir o recurso e renunciar a ele. Quem precisa provar a própria inocência ainda está brigando; quem descobre, “com algo próximo da alegria”, que não tem nada a dizer, atravessou a mesma porta que a condessa. E há ainda um excedente de generosidade: ele prefere supor que Chantal se enganou sinceramente, que ouviu mal. Não é ingenuidade; é a liberdade de quem já não depende do julgamento alheio para saber quem é.

Recordo imediatamente um episódio de formação pessoal narrado por D. Bernardo em Saint Bernard’s Three-Course Banquet: ao solicitar ao superior que corrigisse um erro de datas para a sua entrada no noviciado, recebeu como resposta simplesmente: “Eu poderia, mas não vou, e se você tem algum problema com isso pode ir embora”.

Eu me lembro que foi um momento decisivo tremendo para mim. E fiquei lá por uns dez minutos, dizendo a mim mesmo: “é assim que as coisas serão: todas as minhas ideias brilhantes, como esta, terminarão assim. Ou eu aceito isso, ou eu rejeito”. Naquele momento, pela graça de Deus, eu aceitei.¹

A ocasião não podia ser mais trivial: um erro de datas num formulário. E é justamente a trivialidade que interessa, porque mostra que os momentos derradeiros não escolhem cenários à altura. A condessa decidiu sua vida numa conversa à beira da lareira; o padre, preparando a própria refeição; o noviço, parado dez minutos diante de uma resposta seca. A síntese de uma vida cabe em ocasiões que ninguém fotografaria.

No consultório, reconheço essa matéria todos os dias, quase sempre pelo avesso. Boa parte do sofrimento que escuto é uma guerra prolongada contra o que já aconteceu: a infância que deveria ter sido outra, a escolha que não se fez, a perda que não se admite. Enquanto dura a exigência de que o real não tenha sido, a vida fica hipotecada ao passado, e a pessoa, como a condessa antes daquela noite, cumpre os dias em greve silenciosa. Convém dizer com clareza o que a aceitação não é: não é aprovar, não é chamar o mal de bem, não é fingir que a perda não doeu. É cessar de brigar com o fato para poder, enfim, fazer algo com ele. É possível aceitar a realidade nos seus próprios termos numa escala que vai das atividades mais simples, como trabalhar, relacionar-se e descansar, até aquilo que transcende a existência e contém, num único momento, a síntese de uma vida. Em todos os graus, o elemento fundamental é o mesmo: aceitar a realidade é condição da liberdade e da paz. Brigar com ela, embora tenha seu valor no tesouro da experiência, termina em estagnação e aprisionamento.


¹ Saint Bernard’s Three-Course Banquet. Cistercian Publications, 2ª ed. Kentucky: 2013, p. 13.

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O que se espera é que a carta seja apresentada e que Chantal, junto com os demais cidadãos, saia humilhada. Não é o que acontece. Num monólogo reflexivo, enquanto prepara sua refeição, o amadurecimento do jovem padre se apresenta.

Não fui nem tentado a falar da carta. Voltei à reitoria. Em vez de sofrer, senti como se um grande peso houvesse sido erguido. Aquele encontro com o pároco de Torcy foi como um ensaio para os que teria em breve com meus superiores. Descobri, com algo próximo da alegria, que não tinha nada a dizer. Por dois dias, havia temido ser acusado de algo que não fizera — e a honestidade me teria impedido de permanecer em silêncio. Mas agora, podia deixar que cada um julgasse minhas ações por si mesmo. Senti também grande alívio ao pensar que a senhorita Chantal poderia ter se enganado sinceramente quanto ao verdadeiro sentido de nossa conversa, que ela pode muito bem ter ouvido mal.

Recordo imediatamente um episódio de formação pessoal narrado por D. Bernardo em Saint Bernard’s Three-Course Banquet: ao solicitar ao superior que corrigisse um erro de datas para a sua entrada no noviciado, recebeu como resposta simplesmente: “Eu poderia, mas não vou, e se você tem algum problema com isso pode ir embora”.

Eu me lembro que foi um momento decisivo tremendo para mim. E fiquei lá por uns dez minutos, dizendo a mim mesmo: “é assim que as coisas serão: todas as minhas ideias brilhantes, como esta, terminarão assim. Ou eu aceito isso, ou eu rejeito”. Naquele momento, pela graça de Deus, eu aceitei.¹

Em termos de psicologia, não se trata de uma simples aceitação para melhor agir, e sim de algo que também se coloca ao alcance cotidiano, uma vez que normalmente não vivemos, na vida diária, momentos tão derradeiros quanto aqueles. É possível aceitar a realidade nos seus próprios termos numa escala que vai das atividades mais simples, como trabalhar, relacionar-se e descansar, até aquilo que transcende a existência e é capaz de conter, num único momento, a síntese de uma vida, como nos casos da condessa e do jovem noviço. Em todos os graus, o elemento fundamental é o mesmo: aceitar a realidade é condição da liberdade e da paz. Brigar com ela, embora tenha seu valor no tesouro da experiência, termina em estagnação e aprisionamento.


¹ Saint Bernard’s Three-Course Banquet. Cistercian Publications, 2ª ed. Kentucky: 2013, p. 13.

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