
Hoje não vou comentar o enredo. Ordet (1955), de Carl Theodor Dreyer, é daqueles filmes cuja descoberta merece ser preservada. Minha sugestão a quem pretende assisti-lo é simples: assista sem procurar muitas informações prévias. Chegar disponível a uma obra é uma disposição cada vez mais difícil num tempo de excesso de informação. Talvez este ensaio inteiro seja sobre ela.
Uma jornada pelas obras cinematográficas das décadas de 1950 e 1960 permite perceber a força de certos elementos formativos: sentido da vida, morte, silêncio, espera, incomunicabilidade, relações familiares, amadurecimento, fé. Explorados com qualidade de forma e conteúdo, esses temas continuam a oferecer muito mais que uma passagem agradável do tempo.
Formar é dar forma
Formar, aqui, é dar forma. As obras de Dreyer, Bergman e Tarkovsky mobiliam o mundo interior: fornecem figuras, gestos e dilemas com os quais podemos pensar a própria vida. Um imaginário rico é também isso, um repertório à disposição da experiência. Quando ele empobrece, a experiência permanece, mas podemos ter menos recursos para reconhecê-la e nomeá-la.
Esses filmes não exigem todos a mesma disposição. Há obras que nos recebem pela velocidade, pela surpresa e pelo divertimento; outras pedem uma demora inicial para que comecemos a perceber o que oferecem. Parte da formação do gosto está em aprender a atravessar essa primeira estranheza.
Penso no potencial simbólico das obras, em aproximação com a distinção de Susanne Langer entre o discursivo e o presentacional. Uma cena não se esgota na sequência das falas nem na paráfrase do enredo. Imagens, personagens, música e gestos se articulam numa forma que pode continuar a produzir sentido muito depois da primeira experiência.
É por isso que um grande filme não termina nos créditos: fica à espera na memória e retorna quando a vida o convoca. Anos depois, diante de uma perda, de uma escolha ou de um cansaço difícil de explicar, uma cena pode emprestar forma ao que estamos vivendo.
Em Luz de Inverno (1963), por exemplo, um pastor luterano atravessa uma crise de fé enquanto continua a cumprir suas funções. Poucos de nós exercemos um sacerdócio; todos, porém, conhecemos atividades que podem perder seu sentido interior e continuar por fora: o trabalho, os estudos, a vida familiar, a amizade, a caridade.
Tomas Ericsson oferece uma figura desse esvaziamento. Quem viu o filme pode carregar consigo algo que o ajudará a reconhecer uma experiência própria. A particularidade do personagem não limita sua força; é por meio dela que o filme alcança outras vidas.
O trabalho de escolher
Isso não exige idealizar o passado. Há preciosidades posteriores, como Depois da Chuva (1999), A Espada Oculta (2004) e Amor e Honra (2006). A data não determina o valor de uma obra. Minha preocupação é com o espaço que damos a experiências capazes de formar o imaginário e com aquilo que aceitamos em seu lugar.
Em seu comentário à Poética, Otfried Höffe recorda que, para a tradição grega, “os poetas pertencem aos melhores mestres do povo” (2008, p. 66). Há uma distância entre a poesia grega e o cinema, mas também uma ligação: a humanidade de quem cria e o poder formativo da obra.
O discurso poético fala das possibilidades humanas. Permite experimentar, na imaginação, decisões e consequências que não precisamos ter vivido para começar a compreender. Desse repertório se alimentam também outras formas de pensamento. Sem ele, o raciocínio corre o risco de circular entre palavras que já não encontram a experiência.
Vejo aí uma condição também para a retórica, a discussão dialética e a análise lógica: que as palavras conservem alguma ligação com o mundo vivido. A imagem poética não substitui esses trabalhos; oferece uma matéria sobre a qual eles podem se exercer.
O artista carrega, por isso, uma espada de dois gumes. Aquilo que dá forma ao olhar também pode estreitá-lo. A escolha do que vemos e lemos participa de nossa formação, inclusive quando não prestamos atenção a ela.
O excesso de informação torna essa escolha mais difícil. Receber muito não equivale a saber selecionar. É preciso cultivar a sensibilidade para distinguir o que alimenta a vida interior daquilo que apenas ocupa a atenção, e desenvolver a capacidade de dizer não mesmo quando o próximo estímulo já está disponível.
Os ambientes digitais acrescentam sua própria organização a esse problema: sugestões sucessivas, reprodução automática, notificações. Discuto essa captura da atenção na série sobre telas, especialmente em O que a tela rouba de você. Aqui me interessa o espaço que esse fluxo deixa para uma escolha efetivamente nossa.
O gosto também precisa de exercício. A familiaridade exclusiva com recompensas rápidas pode tornar estranha uma obra que exige silêncio, espera e atenção sustentada. Não é apenas uma questão de encontrar tempo para Ordet, mas de cultivar o desejo por esse tipo de experiência.
Volto, por fim, ao ponto de partida. Não disse nada sobre o enredo, e não direi. Digo apenas que o filme pede disponibilidade para suportar o ritmo das coisas que amadurecem devagar, sem exigir recompensa a cada minuto. Cultivar essa disposição é possível, e os próprios filmes podem participar desse aprendizado.
Se no primeiro ensaio eu disse “veja Bergman”, hoje acrescento: e Dreyer também.
Referência: HÖFFE, Otfried. Aristóteles. Porto Alegre: Artmed, 2008.