TEXTOS E LEITURAS

Decálogo 8 — Kieślowski e o tempo de compreender

Capa do ensaio sobre Decálogo 8, de Krzysztof Kieślowski

Há no oitavo filme do Decálogo (Krzysztof Kieślowski, 1988) um diálogo que ilumina algo essencial à psicoterapia. A série acompanha moradores de um conjunto habitacional de Varsóvia; personagens de um episódio atravessam outro, revelando a malha da vida comum. Vizinhos que mal se conhecem enfrentam dilemas diferentes no tema, mas não na dificuldade.

Elżbieta, sobrevivente da guerra desde criança, volta a Varsóvia em busca de respostas sobre o próprio passado. Procura Zofia, professora de ética que também atravessou a guerra. Mais não digo, para preservar a descoberta de um filme tão bonito. Importa aqui um único diálogo.

Encontrar por conta própria

Zofia conduz suas aulas por aberturas: ela e os alunos propõem situações, e a turma precisa pensar no que se passa, ou pode ter se passado, em cada uma. A própria série ensina assim o público a reconhecer a complexidade de certas decisões humanas, muito distantes do simples preto no branco.

Numa dessas aulas, uma aluna relata um caso que o espectador reconhece do segundo filme: a mulher de um homem gravemente doente quer saber se ele sobreviverá, pois está grávida do amante. Sua decisão sobre a gravidez depende dessa resposta. O dilema que num episódio foi vida vivida retorna noutro como matéria de reflexão. Eis a malha.

Quando Zofia diz acreditar no bem que existe em cada pessoa, Elżbieta pergunta se é isso que ensina aos alunos. A professora responde, em essência, que está ali para ajudá-los a encontrar por conta própria.

Existe algo disso no consultório, na psicoterapia psicanalítica: a recusa das respostas prontas, das fórmulas do tipo faça isso ou aquilo, do segredo condensado num aforismo que bastaria aplicar para tudo se endireitar. O psicólogo ajuda o paciente a investigar suas próprias respostas.

Isso pode soar como evasão. Contudo, dizer a uma pessoa o que fazer não resolve, por si só, aquilo que a impede de escolher ou de compreender a própria situação. Há ainda o risco de reduzir a psicoterapia a uma opinião: eu acho que você deveria fazer isto; se der errado, a escolha foi sua. Um trabalho clínico pede outra responsabilidade.

O tempo de compreender

A análise pede continuidade e reflexão. O paciente precisa participar da descoberta, reconhecer seus conflitos e encontrar palavras para o que vive. Esse movimento não pode ser inteiramente introduzido de fora, como se o psicoterapeuta tivesse a missão de fornecer verdades e frases-guia. Não somos o Google nem um tipo de biscoito da sorte.

Um processo sério pode ser difícil, embora também tenha momentos confortáveis e agradáveis. Encontrar uma limitação, suportar a frustração, a finitude ou a solidão pode doer. No trabalho analítico, essa experiência encontra acompanhamento e possibilidade de elaboração. É uma diferença que precisa ser vivida, para além de ser compreendida logicamente.

Esse tempo contraria a pressa que marca tantas experiências contemporâneas. A imagem da sociedade líquida, de Zygmunt Bauman, vem à lembrança: tudo parece ser para ontem e escorre por entre os dedos com a mesma velocidade com que se derrama sobre eles. Nem sempre compreender obedece ao ritmo do que desejamos resolver.

A psicanálise não é panaceia. Sua proposta é oferecer condições para investigar o sofrimento e a história de quem procura ajuda; o percurso e seus efeitos são singulares. A dedicação exigida não transforma a dificuldade em medida de valor, nem dispensa rever o próprio trabalho.

Certo dia ouvi o dito atribuído a Santa Teresa de Ávila: é justo que muito custe o que muito vale. Transposto para este contexto, penso no esforço de entrar em contato consigo mesmo e na possibilidade de decidir com maior consciência o que fazer dali em diante. Como nas aulas de Zofia: em vez de uma fórmula, a oportunidade de ver mais.