Quem é psicólogo e quem não é.

A rigor, no Brasil, psicólogo é todo aquele que faz faculdade de psicologia, até o fim, e recebe o diploma de psicólogo. Depois, é necessário o registro no Conselho de Psicologia, com cadastros, taxas etc. para estar ativo e assim poder exercer a profissão de psicólogo e tudo o que ela permite livremente em território nacional.

Se nesta parte já está difícil, pois para burlar a burocracia — e o ensino formal — basta mudar o título da prática exercida e não cometer nenhum disparate nas consultas. O sujeito pode se dizer terapeuta, ou qualquer coisa que o valha, e estamos ainda na iminência — se não agora, pode ser que logo mais — de que qualquer pessoa possa se dizer psicoterapeuta, de modo que um diploma universitário vire apenas “um plus a mais” no exercício dessa profissão que vai ficando tanto mais diluída quanto “acessível”.

Cabe a cada um fazer boas buscas por profissionais verdadeiros da psicologia, ou psicólogos dignos do nome, e se preparar para fazer algum investimento maior. Se o custo de uma sessão não garante a eliminação dos picaretas, pois, convenhamos, eles estão espalhados por tudo que é canto, ao menos oferece alguns indícios de que algo diferente está sendo feito para aquisição de conhecimento e aplicações clínicas. Vamos a alguns elementos básicos:

  1. Psicólogo também precisa se tratar — Para exemplificar esta verdade, menciono o que ouvi de uma pessoa mais velha, que, dado seu estilo de vida e estudos aprofundados, é visto como alguém sábio, sendo procurado por pessoas para tomar conselhos de vida. Ele me disse: “eu estava ficando apavorado, o rapaz estava me confessando que iria abusar da namorada, mas desistiu na última hora, fiquei com isso vários dias na cabeça, perdia o sono, não podia ouvir aquilo”. Ouvir as dores e problemas alheios exige preparo — o que esta pessoa, por estudiosa e experiente que fosse, não tinha. O gosto inicial por ouvir e aconselhar, por sentir-se importante e requisitado, dá lugar ao acúmulo de histórias, lágrimas, arrependimentos, angústias e uma gama interminável de outras coisas que não podem ser simplesmente ignoradas ou tratadas com indiferença. Não é bem assim: “senta aí e me conta o que está acontecendo”. Não se pode ligar uma câmera e falar com alguém morando fora do país, em outra cultura e contexto, e achar que ao desligar a câmera ou fechar a porta do consultório nada daquilo ficará consigo. Cada psicólogo precisa também realizar o seu tratamento, compreender, absorver e ressignificar suas dores para que seja capaz de trabalhar com as dores alheias. É um completo absurdo ver que pessoas que não fazem essa parte do preparo, o preparo de si, passam a oferecer serviços de psicologia clínica para os outros.
  2. Preparo custa dinheiro — No caso da psicanálise — e da psicoterapia de orientação psicanalítica — existem três elementos fundamentais e indispensáveis para o profissional: o tratamento pessoal, que chamamos de análise pessoal, a supervisão, isto é, a discussão do caso com outro profissional mais experiente do que nós, e o grupo de estudos, seja numa sociedade psicanalítica ou fora dela, mas com método, referência e muito seriedade. Cada um desses elementos tem um custo — estou falando literalmente de dinheiro: boas análises custam entre 250 e 350 reais por sessão, e é recomendado ao menos duas sessões semanais. A supervisão pode chegar a 800 reais, enquanto grupos de estudo ficam na média dos 250 reais. Fora aluguel de sala e impostos, além dos gastos pessoais normais do dia a dia. Obviamente esses valores todos variam; a intenção não é a de ir para a ponta do lápis aqui neste ensaio, senão a de demonstrar que a aquisição do conhecimento sólido para exercer bem esta profissão exige — além do investimento intelectual — o investimento financeiro. Assim, pode haver, sim, horários destinados a valores sociais, a fim de dar acesso tratamento de excelência a pessoas de menor capacidade aquisitiva, mas, de modo geral, a tabela de sugestões de valores do CFP, colocando como valor mínimo 208 reais por sessão, não está equivocada.
  3. Os perigos do despreparo — Sem este apoio e preparo, especialmente para não profissionais da área, como no caso mencionado acima, ouvir torna-se de fato perigoso. Porque num atendimento clínico de orientação psicanalítica, dar uma opinião, “punir” o paciente por algum comentário, aconselhar baseado em sentimentos e crenças pessoais, algo como “você deveria…”, “o que você precisa é…”, “eu acho que o seu problema é que…”, “estou vendo que você…”, faz com que o terapeuta assuma uma posição que não lhe cabe: a de dizer o que uma pessoa deve ou não fazer da sua vida. A partir do seu lugar de autoridade, ao menos momentânea, um psicoterapeuta ouve histórias e segredos que ninguém mais conhece, sentimentos e memórias, e o que é dito a partir daí tem muito mais peso do que aquilo que se fala em uma conversa informal.
  4. A importância da teoria — uma abordagem teórica bem definida exerce um papel continente: ela estabelece os limites e dá certas garantias ao trabalho clínico. Ela garante, se bem entendida e trabalhada — por isso a importância da análise pessoal, supervisão e estudo contínuo —, a permanência do analista no seu lugar de analista, oferecendo constantemente ao paciente, ou analisando, a oportunidade de tratamento psíquico. Perder isso de vista, seja por estar muito impressionado com uma história triste, seja por desejar acolher o paciente, seja por uma eventual paixão que se apresenta perigosamente para alguém despreparado, significa destruir a psicoterapia, transformá-la em outra coisa e até mesmo piorar a situação de quem estava procurando ajuda.

Isso e muitas outras coisas dão muito trabalho. O mais difícil na profissão de psicólogo não é a formação: a parte da faculdade é literalmente fácil, embora longa e tediosa. Esta parte de obter o diploma está na verdade muito mais ligada ao fazer: basta comparecer às aulas e colocar um mínimo de esforço em provas e trabalhos, nunca é preciso muito, salvo raríssimas exceções, muito mais ligadas a uma motivação pessoal do que a uma exigência institucional. Porém, quando mudamos do fazer para o ser, a conversa é completamente outra. Ser psicólogo é absolutamente diferente de fazer (faculdade de) psicologia. O ser envolve, como diz meu professor Luiz Gonzaga, obter um conhecimento até que ele vire carne, sangue e ossos em você, de modo que você não precise mais pensar naquilo diretamente — como algo que está fora e precisa ser reencontrado —, senão como quem fala de si mesmo. Então, esse tripé mencionado (supervisão, análise e estudos) significa alimentar-se, mastigar, digerir e absorver uma série de percepções — dos acontecimentos comuns, generalizáveis, e dos únicos —, encontrar verdades dolorosas sobre si, aceitar a verdade nos seus próprios termos, meditar o que outros autores disseram e procurar encontrar essas palavras no dia a dia, recriando em si mesmo a capacidade de ver e verificar o que Freud, Klein, Winnicott, Bion e tantos outros registraram. Ver no consultório e dentro de si. Esse é o trabalho de muitos anos e, para quem quiser, é o trabalho de uma vida, sempre interminável, sempre restando algo por apreender, elaborar e integrar.

Quem faz isso, no meu entender, pode começar a dizer que é psicólogo. Quem não faz, não é.

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