O que é psicoterapia psicanalítica

Falava ontem sobre o que entendo como condições mínimas para que alguém se diga psicólogo (aqui), e sustentei que elas se reduzem a um tripé clássico: análise pessoal, supervisão e estudo. Hoje quero mostrar onde isso aparece, por que uma exigência dessas se justifica no consultório.

Bem entendido: quero dizer psicólogo clínico, essa modalidade de atendimento que ocorre em um consultório, com dias, horários e regras definidos. Pois bem, o que se pode esperar de um psicólogo clínico que trabalhe com orientação psicanalítica? Ou, dito como quem procura ajuda costuma perguntar: como funciona, na prática, uma psicoterapia psicanalítica?

Começo pelo que é mais simples de dizer e que, não sei bem por quê, quase nunca se diz clara e diretamente logo que se pede. Atendo uma vez por semana, em alguns casos duas ou mais vezes conforme indicação e necessidade de cada pessoa, em sessões que variam entre cinquenta minutos e uma hora, com dia e horário fixos na semana. Aquele horário é daquela pessoa e de mais ninguém, inclusive quando ela não comparece: sessões desmarcadas são cobradas ou, quando possível, recuperadas. As férias, minhas e da pessoa, são avisadas com antecedência suficiente para que não sejam sentidas como abandono, indiferença, displicência. Os honorários seguem a tabela de referência do CFP, são acertados na primeira entrevista e não mudam sem conversa — e reservo alguns horários a valores sociais, que são combinados do mesmo modo, com clareza e sem constrangimento.

Nada disso é burocracia de consultório. É a regularidade que torna possível notar alguma coisa. Por exemplo, sobre um fundo estável, o atraso passa a significar, a falta passa a significar, o silêncio de uma sessão inteira passa a significar; sem esse fundo, tudo é apenas o acaso da semana. O enquadre, ou setting psicoterapêutico, é o que separa a psicoterapia da conversa bem-intencionada, e é também o que protege a pessoa que se trata — dele decorre saber exatamente o que se está contratando, quanto custa, quanto dura e o que acontece quando não se pode ir.

Existe, primeiro, um período de avaliação mútua, que geralmente se estende por um ou dois meses, em que o candidato à psicoterapia tem a oportunidade de conhecer o meu trabalho, a forma como atendo e me comunico, as intervenções, o ambiente, o funcionamento geral desta forma de lidar com o sofrimento psíquico. Ao mesmo tempo, tenho eu a oportunidade de conhecer suas necessidades e pensar em alguma forma de tratamento, levantando algumas hipóteses dentro da teoria psicanalítica que estudo.

Avaliação mútua quer dizer que o outro lado também decide. Posso concluir que não é comigo que aquela pessoa deve se tratar: porque a demanda pede outro tipo de trabalho, porque há uma urgência que exige encaminhamento médico, porque o horário possível não é o horário de que ela precisa, ou porque alguma coisa em mim não permitiria escutar bem aquele sofrimento. Dizer isso e encaminhar não é fracasso do primeiro mês; é uma das decisões mais sérias que a profissão exige, seguramente é melhor do que sustentar por anos um tratamento que não deveria ter começado, poupando investimento de tempo, dinheiro e energia em algo que não pode cumprir bem sua finalidade.

Aqui que o tripé de ontem deixa de ser exigência abstrata. Reconhecer que uma demanda não é para mim depende de eu saber, com alguma honestidade, onde estão os meus limites, e isso não se aprende no livros, mas na própria análise. Formular hipóteses sobre um sofrimento, em vez de dar conselhos sobre ele, depende do estudo. Sustentar as duas coisas sem me enganar depende da supervisão, que é o lugar onde alguém escuta aquilo que eu não escutei. Um período de avaliação conduzido por quem não tem esses três apoios não avalia coisa alguma: é uma conversa agradável ao fim da qual o profissional dirá que sim, porque não tem com que dizer que não.

Entendo que essa honestidade, de parte a parte, é fundamental ela inclusive está de acordo com a Regra do Amor à Verdade, condição indispensável para a psicoterapia.

Depois desse momento de avaliação inicial, de ter experimentado um pouco do que significa expor sentimentos, história de vida, pensamentos e conflitos, depois de conhecer um ambiente onde se é acolhido sem julgamentos e auxiliado pelo psicoterapeuta a fazer ligações, encontrar causas do sofrimento e abrir novas perspectiva — e consequentemente novas possibilidades de ação —, é possível entrar na psicoterapia na forma de um compromisso; consigo mesmo, acima de tudo.

Esse período que dá perspectiva e tira dúvidas serve para evitar um compromisso com uma forma de trabalho que não se conhece; serve para saber que o trabalho não será sempre confortável e agradável, mas também que os ganhos obtidos ali são estáveis, pois, uma vez que se descobre uma verdade sobre si mesmo, sobre uma situação, sobre um elemento esquecido da história de vida que segue pesando hoje, é praticamente impossível voltar atrás.

Dito “por cima”, é isso. Evidentemente o processo é mais complexo, e há momentos em que as contrariedades e dificuldades parecem colocar toda a psicoterapia em dúvida. Entretanto, com muita seriedade, conhecimento e um bom vínculo, por parte de quem está interessado em crescimento e melhora, é possível entrar na jornada da psicoterapia e obter dela aquilo que ela pode oferecer a quem tem o bom ânimo e a coragem de enfrentá-la.

Bom, mas naturalmente existem pessoas que não iniciam a psicoterapia após esse período inicial; existem inclusive aquelas que, três ou quatro sessões depois, resolvem não permanecer. Os motivos são os mais variados, dentre os quais destaco um: havia uma demanda inicial que, a partir dos primeiros contatos, encontrou alívio — algo mais pontual para aquele momento e que não pede, ainda, uma investigação profunda. O respeito ao momento, às necessidades e às decisões de cada pessoa que busca ajuda profissional para suas questões psíquicas é parte integrante e fundamental desta profissão.

Às vezes, tudo o que se pode fazer naquele momento é uma escuta acolhedora e não julgadora, com uma ou outra intervenção. Isso não chega a configurar uma psicoterapia, e seria desonesto chamar assim; mas é, em si mesmo, um trabalho psicológico, e cumpre alguma função organizadora. Vale a pena insistir nessa diferença, porque quase todo o mal-entendido a respeito da nossa profissão mora nela: o alívio de ter sido escutado uma vez é real, por isso mesmo é tantas vezes confundido com tratamento, mas não é. Esse alívio também pode ser vendido como tratamento, chamado de terapia e, infelizmente, até de psicoterapia, mas insisto, não é. Inclusive, aprender a fazer bem as distinções entre isto e aquilo sobre si mesmo, sobre como vê e entende o que está ao redor, é um dos ganhos mais ou menos comuns de uma boa psicoterapia. o que se vai fazer com ganhos como esse, cada paciente escolherá por si.

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