O que o celular faz com o seu cérebro

Estudos de neuroimagem mostram que o uso problemático de smartphones produz alterações estruturais e funcionais em regiões do cérebro ligadas à tomada de decisão, ao controle de impulsos e ao processamento emocional, modificando, de maneira mensurável, o órgão com o qual se pensa, sente e decide.

Existe um volume crescente de evidências convergentes. Uma revisão narrativa publicada em 2025, sintetizando 25 revisões sistemáticas e meta-análises, identificou associações consistentes entre uso excessivo de smartphones e comprometimento cognitivo, perturbação do sono, sintomas de ansiedade e depressão, e padrões comportamentais comparáveis aos observados em transtornos por uso de substâncias (GIANSANTI, 2025). O campo ainda carrega imprecisões metodológicas — amostras pequenas, critérios diagnósticos heterogêneos, dificuldade em estabelecer causalidade — mas a direção das evidências é suficientemente clara para merecer atenção.

O circuito sequestrado

O cérebro humano possui um sistema de recompensa cuja função é orientar o organismo em direção a comportamentos que favorecem a sobrevivência. Comer, reproduzir, explorar ambientes novos — cada um desses atos é acompanhado por uma liberação de dopamina, neurotransmissor que não produz prazer diretamente, mas sinaliza relevância e motiva a repetição. A dopamina não diz “isto foi bom”. Ela diz “isto pode ser importante — faça de novo”.

O ser humano responde a estímulos escassos, intermitentes e de alta relevância. O que os aplicativos modernos fazem é saturar esse sistema com estímulos de baixa relevância em frequência altíssima.

O mecanismo central é o reforço variável. Quando a recompensa é imprevisível — às vezes uma mensagem importante, às vezes nada, às vezes um like — a resposta dopaminérgica é mais intensa e persistente do que quando a recompensa é certa e regular. Esse princípio, identificado por Skinner em experimentos com animais nos anos 1950, é hoje a espinha dorsal do design de engajamento das plataformas digitais. É o mesmo mecanismo que torna as máquinas caça-níqueis mais compulsivas do que um salário fixo: a incerteza potencializa a antecipação, e a antecipação é o estado que o cérebro mais busca.

Prazer e dor compartilham os mesmos circuitos neurais e funcionam como dois lados de uma balança. Quando um lado é ativado, o cérebro compensa inclinando a balança para o lado oposto como uma resposta para restaurar o equilíbrio. Com exposição repetida e intensa ao mesmo estímulo, essa compensação se torna antecipada: o cérebro começa a se inclinar para o lado da dor antes mesmo do prazer chegar, o que se manifesta como a inquietação, o tédio, o leve mal-estar que precede a próxima checagem do telefone. (LEMBKE, 2021)

Ao longo do tempo, o resultado é um rebaixamento da linha de base hedônica. Os prazeres ordinários perdem contraste. O que antes satisfazia passa a parecer insuficiente. Não porque o mundo ficou menos interessante, mas porque o sistema de recompensa foi recalibrado para responder a estímulos de maior intensidade.

Essa recalibração deixa rastros mensuráveis. Estudos de neuroimagem identificaram, em usuários com padrão problemático de uso, redução de volume de substância cinzenta no córtex orbitofrontal lateral — região envolvida na regulação emocional, no processamento de recompensas e no comportamento social — e conectividade reduzida entre o nucleus accumbens e o córtex orbitofrontal (ANBUMALAR et al., 2024). Essa redução de conectividade é relevante: ela sugere comprometimento da comunicação entre o sistema de recompensa e as regiões frontais responsáveis pela regulação e pelo controle. Em termos funcionais, o circuito que deveria modular o impulso passa a modulá-lo com menos eficiência.

Pesquisadores submeteram participantes a 72 horas de restrição ao smartphone e observaram mudanças significativas na atividade o que indica que o circuito de recompensa responde à presença ou ausência do aparelho da mesma maneira que responde a qualquer substância à qual o organismo se habituou. Setenta e duas horas. O tempo necessário para o cérebro começar a se reajustar é comparável ao de uma desintoxicação leve. (SCHMITGEN et al., 2025)

O que isso produz

As consequências funcionais são menos dramáticas do que os achados de neuroimagem, mas são mais universais, porque se manifestam no cotidiano de quem não se reconhece como dependente e jamais se descreveria com esse termo.

A fragmentação da atenção é o efeito mais documentado. O ponto de partida do debate é um estudo de Ward et al. (2017), que demonstrou que a mera presença do smartphone sobre a mesa — mesmo com a tela virada para baixo, mesmo no modo silencioso — reduzia o desempenho em tarefas de memória de trabalho e inteligência fluida. A hipótese dos autores era que o cérebro alocava recursos cognitivos para inibir a atenção ao aparelho, e esses recursos deixavam de estar disponíveis para a tarefa em curso. O efeito ficou conhecido como brain drain — drenagem cognitiva.

O estudo gerou controvérsia, e as revisões subsequentes matizaram suas conclusões. Uma meta-análise de 2024 reunindo 56 estudos e mais de sete mil participantes (PARRY, 2024) encontrou efeito significativo apenas para a memória de trabalho; os demais domínios cognitivos avaliados — atenção sustentada, flexibilidade cognitiva, inteligência fluida, inibição de resposta — não produziram efeitos estatisticamente robustos. O campo, portanto, está num momento de revisão: o efeito existe, mas é menor e mais específico do que o alarme inicial sugeria.

Isso, no entanto, não é um resultado tranquilizador. A memória de trabalho é a capacidade de manter e manipular informações ativas enquanto se realiza uma tarefa. É o recurso cognitivo que sustenta a leitura compreensiva, o raciocínio, a conversa atenta, o planejamento. Comprometê-la — mesmo que moderadamente, mesmo que apenas pela presença do aparelho — tem custos funcionais reais.

A isso se soma o que a literatura descreve como attention residue: mesmo depois de interrompida uma tarefa para checar o celular, parte da atenção permanece presa à interrupção anterior, reduzindo a qualidade do reengajamento com o que se estava fazendo. O custo cognitivo não está apenas na checagem, mas na reconexão que dificilmente será completa.

Além da atenção, o uso crônico está associado a um rebaixamento do limiar de tolerância ao desconforto interno. A capacidade de sustentar estados de tédio, espera, incerteza ou vazio sem buscar estimulação imediata diminui — não porque o indivíduo seja impaciente por natureza, mas porque o cérebro aprendeu que o alívio está a um gesto de distância. Essa aprendizagem tem consequências para a regulação emocional. Processar estados internos difíceis — ansiedade, tristeza, raiva, solidão — exige justamente a capacidade de permanecer com eles tempo suficiente para que a regulação aconteça. Quando esse tempo é sistematicamente encurtado por uma saída disponível a qualquer momento, o processamento não ocorre; o desconforto é postergado, não elaborado.

O campo ainda debate uma questão central e ainda sem resposta definitiva: as alterações cerebrais observadas são consequência do uso excessivo, ou refletem uma vulnerabilidade pré-existente que torna certos sujeitos mais suscetíveis ao padrão problemático? A resposta mais honesta, e a mais sustentada pelas evidências disponíveis, é que provavelmente as duas coisas são verdadeiras — e que, do ponto de vista clínico, essa distinção importa menos do que parece quando o comportamento já está instalado.

Por que é tão difícil parar

Saber que o celular aciona o circuito de recompensa não responde à pergunta mais relevante: por que esse circuito foi ativado com tanta intensidade nesse sujeito, nesse momento, dessa forma específica?

Para entender por que o uso compulsivo resiste à intervenção voluntária — por que o sujeito que sabe perfeitamente o que está fazendo continua fazendo — é necessário deslocar a pergunta: não apenas “o que o celular faz ao cérebro”, referente ao mecanismo, mas “o que o celular resolve para quem o usa dessa forma”, referente à função.

Donald Winnicott introduziu o conceito de objeto transicional para descrever aqueles itens — o ursinho, o cobertor, o fragmento de tecido — aos quais a criança pequena recorre para manejar a angústia da separação (WINNICOTT, 1953). O objeto transicional não é o cuidador, mas representa a continuidade do vínculo na ausência dele. Ele ocupa uma área intermediária de experiência — entre o mundo interno e o externo, entre o eu e o outro, entre a dependência e a autonomia — que não pertence inteiramente a nenhum desses polos, mas os mantém em relação. Sua função não é apenas consoladora; é estruturante. É por meio dessa área intermediária que a criança aprende a tolerar a ausência sem ser destruída por ela.

O adulto não abandona a necessidade desse espaço, apenas muda os objetos que o habitam. A questão é que o smartphone reúne, num único dispositivo, praticamente todas as funções que um objeto transicional pode cumprir: está sempre disponível, nunca rejeita, oferece contato social sem o risco da presença real, preenche o silêncio, interrompe o vazio, mantém aberta uma janela para o outro sem exigir a vulnerabilidade que o encontro real demanda. Nos momentos de solidão, ansiedade ou tédio insuportável — estados que na infância eram mediados pela presença do cuidador — o aparelho oferece uma regulação substituta. 

A diferença entre o objeto transicional infantil e o smartphone é que o primeiro, em condições de desenvolvimento saudável, é progressivamente abandonado à medida que a criança desenvolve capacidade interna de se regular. O segundo não apenas não é abandonado — como é ativamente renovado, aprimorado e recalibrado para se tornar cada vez mais eficaz nessa função. A indústria tecnológica construiu o objeto transicional mais sofisticado da história humana.

Edward Khantzian, psicanalista de Harvard, desenvolveu ao longo de décadas a hipótese da automedicação para compreender o uso compulsivo de substâncias (KHANTZIAN, 1997). Seu argumento central é que o uso compulsivo raramente é aleatório: os sujeitos tendem a selecionar — não necessariamente de forma consciente — a substância que alivia o desconforto específico com o qual têm maior dificuldade de lidar. Estimulantes para quem luta contra estados depressivos e de esvaziamento. Opioides para quem carrega raiva intensa e afetos violentos. A escolha da substância é, nessa leitura, um ato que revela algo sobre a estrutura psíquica de quem escolhe.

A lógica se transpõe ao celular com precisão considerável. O que o aparelho atenua — ansiedade social, vazio afetivo, dificuldade de estar só, necessidade de reconhecimento, intolerância à incerteza — não é uniforme entre os usuários. Cada padrão de uso compulsivo tem sua própria assinatura. O sujeito que checa compulsivamente notificações está em busca de algo diferente do sujeito que rola o feed por horas ou do sujeito que mergulha em jogos até a madrugada. A forma do uso é um dado clínico.

Essa perspectiva não absolve a indústria de tecnologia nem minimiza a engenharia de captura dos aplicativos — que é real, documentada e deliberada —, mas desloca o problema de onde ele costuma ser colocado: fora do sujeito, na tela. O sujeito que usa o celular como regulador emocional primário não está demonstrando necessariamente fraqueza de vontade, falta de disciplina ou ignorância sobre os riscos. Está usando o melhor recurso que encontrou para manejar algo que precede o aparelho, a tela apenas encontrou uma ferida que já existia.

Isso é o que torna a simples restrição de tempo de tela, por si só, tão pouco eficaz como intervenção. Remover o objeto sem compreender a função que ele cumpre não resolve o problema; no melhor dos casos, o desloca.

Para continuar

Parte do que o torna difícil de largar não está no dispositivo em si, mas no que ele carrega: redes sociais construídas sobre um mecanismo específico — a busca por validação. Entender como esse mecanismo opera, o que ele faz com a percepção que temos de nós mesmos e por que é tão difícil resistir a ele, é o tema do próximo artigo.

Referências

ANBUMALAR, C.; BINU SAHAYAM, D. Brain and smartphone addiction: a systematic review. Human Behavior and Emerging Technologies, [s. l.], v. 2024, art. 5592994, 2024. DOI: 10.1155/2024/5592994. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1155/2024/5592994. Acesso em: 13 abr. 2026.

GIANSANTI, Daniele. Smartphone addiction in youth: a narrative review of systematic evidence and emerging strategies. Psychiatry International, Basel, v. 6, n. 4, art. 118, 2025. DOI: 10.3390/psychiatryint6040118. Disponível em: https://www.mdpi.com/2673-5318/6/4/118. Acesso em: 13 abr. 2026.

KHANTZIAN, E. J. The self-medication hypothesis of substance use disorders: a reconsideration and recent applications. Harvard Review of Psychiatry, [s. l.], v. 4, n. 5, p. 231-244, 1997.

LEMBKE, Anna. Dopamine Nation: finding balance in the age of indulgence. New York: Dutton, 2021. cap. 3.

MONTAG, Christian; BECKER, Benjamin. Neuroimaging the effects of smartphone (over-)use on brain function and structure: a review on the current state of MRI-based findings and a roadmap for future research. Psychoradiology, [s. l.], v. 3, art. kkad001, p. 1-13, 2023. DOI: 10.1093/psyrad/kkad001. [N.B.: referência incluída na lista original, mas sem correspondência de citação no texto — verificar se deve ser incluída ou removida.]

PARRY, D. A. Does the mere presence of a smartphone impact cognitive performance? A meta-analysis of the “Brain Drain Effect”. Media Psychology, [s. l.], v. 27, n. 5, p. 737-762, 2024.

SCHMITGEN, Mike M. et al. Effects of smartphone restriction on cue-related neural activity. Computers in Human Behavior, Amsterdam, v. 167, art. 108610, 2025. DOI: 10.1016/j.chb.2025.108610.

WARD, Adrian F. et al. Brain drain: the mere presence of one’s own smartphone reduces available cognitive capacity. Journal of the Association for Consumer Research, Chicago, v. 2, n. 2, p. 140-154, 2017. DOI: 10.1086/691462.

WINNICOTT, D. W. Transitional objects and transitional phenomena. International Journal of Psycho-Analysis, [s. l.], v. 34, p. 89-97, 1953.

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