Vício em telas · Parte 2 de 4
O vídeo termina e outro começa. O feed continua enquanto o dedo desliza. Uma notificação recoloca o aplicativo no centro da atenção. Há escolhas de projeto nesses pequenos acontecimentos: algumas tornam fácil continuar e deixam a decisão de parar inteiramente a cargo de quem usa.
Na primeira parte, vimos os limites do que a ciência permite afirmar sobre cérebro e atenção. Agora a pergunta muda: como o ambiente digital organiza as oportunidades de entrar, permanecer e sair?
A arquitetura da permanência
B. J. Fogg (2009) propôs um modelo de design persuasivo que reúne três elementos: motivação, facilidade para executar uma ação e um estímulo que convide a realizá-la. O modelo ajuda a examinar interfaces; não significa que todo comportamento possa ser explicado ou controlado por essa combinação.
Uma notificação convida a voltar. A rolagem infinita dispensa a passagem entre páginas. A reprodução automática apresenta outro conteúdo sem exigir uma nova escolha. Já os indicadores públicos de popularidade tornam visível a resposta recebida de outras pessoas. São recursos diferentes, com efeitos que dependem do contexto e de quem os utiliza.
A assimetria está na continuidade oferecida por padrão: para seguir, muitas vezes basta não interromper; para sair, é preciso decidir. Isso não elimina a autonomia, mas ajuda a entender por que uma intenção breve pode se transformar numa permanência longa.
O interesse comercial
Em serviços financiados por publicidade, a permanência oferece oportunidades de exposição a anúncios. Há, portanto, um interesse comercial em manter o público envolvido. Esse incentivo não explica sozinho cada decisão de produto, mas integra o ambiente em que essas decisões são tomadas.
A personalização acrescenta outra camada. Em sua documentação, a Meta explica que combina sinais de atividade e previsões sobre a relevância dos conteúdos para organizar o que aparece no Facebook e no Instagram (Meta, 2023). Curtidas, compartilhamentos e outras interações participam desse processo.
O sistema não precisa conhecer as razões íntimas de uma escolha para aprender que certo tipo de conteúdo tende a receber uma resposta. A repetição pode ser alimentada por essa previsão, mesmo que a experiência deixe de ser satisfatória para quem continua navegando.
O algoritmo não conhece sua história
Prever uma interação não equivale a compreender um sujeito. Um clique pode expressar interesse, trabalho, curiosidade, incômodo ou simples distração. Seria um salto chamar o algoritmo de leitor do inconsciente ou afirmar que ele identifica, com precisão clínica, as vulnerabilidades de cada pessoa.
A questão psicanalítica começa em outro lugar: o que faz determinado conteúdo prender alguém? Reconhecimento, pertencimento, comparação e medo de ficar de fora podem participar da experiência. São possibilidades de investigação, não interpretações que se possam deduzir do histórico de navegação.
Há um encontro entre a oferta da plataforma e a história de quem a utiliza. Observar esse encontro evita tanto transformar a tecnologia numa força onipotente quanto atribuir toda dificuldade à falta de vontade individual.
Uma pergunta simples ajuda a localizar a diferença: eu ainda estou aqui pelo motivo que me trouxe? Quando a resposta é não, vale reconhecer o intervalo entre a intenção de usar e o movimento de continuar. Esse intervalo é um lugar possível de escolha.
Para continuar
Na próxima parte, a atenção sai do aplicativo e volta à vida que divide espaço com ele: O custo das telas: tempo, vínculos e vida interior.
Na série Vício em telas: 1. Cérebro e atenção · 2. Design · 3. Custos · 4. Práticas.
Israel Machado é psicólogo clínico em Passo Fundo, RS. CRP 07/43950. Atendimento individual com orientação psicanalítica, presencial e online.