Sonata de Outono — Bergman

Eu não conhecia o poder do cinema até esta noite, quando assisti ao filme que dá nome ao ensaio. Durante anos nos meios de psicologia recebi inúmeras recomendações de filmes e séries que retratam temas estudados em alguma disciplina acadêmica ou grupo de estudos, geralmente algo assim: “Gente, assistam tal filme, ele fala exatamente sobre isso”. Diversas vezes cheguei em casa, preparei a pipoca e coloquei o tal filme na TV, mas invariavelmente não consegui ficar ali por muito tempo. Cheguei a pensar que eu mesmo não era dado ao cinema e que este seria um caminho ruim, ao menos para alguém como eu, aprender psicologia. Em alguns casos, porém, apenas considerei as recomendações esdrúxulas demais para merecerem maior atenção, como cinquenta tons de cinza e outras pérolas — se alguém insistir muito em defendê-las, a partir de hoje, apenas direi: veja Bergman. Alguns anos atrás, seguindo uma vibe cult — expressão que por si só já diz muito  tentei assistir a Morangos Silvestres (1957) e parei nos primeiros minutos incomodado com o ritmo, com as cores preto e branco e com um texto que eu mal podia entender, “filosófico demais”. Felizmente, encontrei neste mês um comentário do professor Ibrahim Amjad, na verdade foi um comentário ao comentário de Dom Bernardo Bonowitz sobre Luz de Inverno (1963), do mesmo Bergman, que dizia algo como: “quando um santo comenta um filme”.

Cena do filme Sonata de Outono (1978), de Ingmar Berman.

 

Tenho o antigo abade da Trapa (que a paz esteja sobre ele) na mais alta conta e resolvi retornar a esse diretor de cinema, como se dissesse: mestre, estive tentando várias vezes, mas por que mandas, vou assistir. Foi uma espécie de segunda chance, mais a mim do que a ele, aceitando iniciar “A Trilogia do Silêncio” pelo meio do caminho: o segundo filme, o de um pastor luterano que perdeu a fé e permanece celebrando os mistérios divinos. Embora seja um grande filme, bem como os demais, não foi este o que me despertou para a força da sétima arte, nem mesmo o que vi após finalizar a triologia em três dias — O Sétimo Selo (1957), a história de um cruzado que joga xadrez com a morte. A ideia é maravilhosa, um dos grandes temas da vida humana: a busca por um ato verdadeiro, por algo que valha a pena ter vivido.

Mas todos esses filmes não tiveram a força de Sonata de Outono (1978), que retrata a relação ao mesmo tempo quebrada e envolta num amor de aparências entre mãe e filha. Não raro se encontra no consultório situações de abandono afetivo, desprezo e mentira iniciados na infância e que reverberam dolorosamente na vida adulta — precisamente o que é retratado no filme. A confrontação terrível da filha com a mãe é o que inúmeras vezes se repete, ao menos em imaginação, e revela uma dinâmica mais ou menos escondida de amor e ódio entre duas pessoas, que necessitam de perdão e reconciliação, embora nem sempre seja possível.

Liv Ullman, que interpreta Eva é um capítulo a parte. Perto dela, atrizes modernas parecem sem talento, criancinhas que ainda têm muito que aprender; contudo, sei que sou psicólogo e não crítico de cinema. Mas, enfim, como pai, creio que o valor mais elevado do filme está nisto: em se colocar como um espelho verdadeiro do ser humano; quem quiser se verá nele, ou verá que poderia estar nele, ou entenderá quem nele está. Seja uma revelação presente, passada ou possibilidade futura, é impossível, absolutamente impossível estar diante de um filme desta magnitude, que tão bem retrata as consequências psíquicas de algumas formas de falha na função materna, sem refletir sobre o pai e a mãe que fomos, somos ou seremos; sem amar mais nossos filhos e procurar evitar ou reparar danos tão profundos.

É por aí que compreendo o significado de universal atribuído a algumas obras. Elas adquirem esse valor universal por falarem a toda a humanidade, em qualquer época e lugar, mostrando ao espectador possibilidades que estão contidas nele, justamente por ser também um ser humano. Essa apresentação de si mesmo, que permite a qualquer um ver-se, confere a chance de ouro à consciência de repensar profundamente os caminhos tomados, e portanto a necessidade de repração, ou os caminhos por tomar, cuja oportunidade está justamente na escolha ou mudança de direção.

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