Diário de um Pároco de Aledeia — Bresson / Bernanos

Após sete filmes seguidos de Igmar Bergman, que irei comentar mais adiante, resolvi mudar de diretor — e de atores — para refrescar a percepção. Apesar de todo brilhantismo de Liv Ulman em Através de um espelho obscuro (1961), não aguentava mais ver o mesmo rosto e penteado. Algo semelhante ao que me ocorreu com Uma Thurman em alguns filmes do Tarantino.

Curiosamente, parece ser este o motivo da separação entre Johan e Marianne, em Cenas de um casamento, um certo fastio da parte dele, embora não se possa resumir tudo a isso. Se os filmes — os bons filmes e livros — servem de espelho, como já disse anteriormente, nada mais natural do que sentir a necessidade do distanciamento que aparece entre os personagens.

Mas o assunto de hoje é outro.

Dou atenção especial a dois momentos em Diário de um pároco (1951). O primeiro são as palavras registradas no diário logo após o velório da condessa. Ela havia perdido um filho pequeno muitos anos atrás e vivera amargurada, enrigecida. Porém, graças a uma converda profunda sobre resignação, encontra finalmente outra coisa, talvez fruto da resignação que já não ocupava mais o primeiro plano: a paz.

Caro padre, a lembrança sem esperança de uma criança pequena me havia isolado de tudo em uma solidão aterrorizante, e parece que foi outra criança quem me tirou dela. Espero não ferir seu orgulho ao chamá-lo de criança. O senhor é uma, e que Deus assim o conserve para sempre. Pergunto a mim mesma como o senhor o fez — ou melhor, deixei de me perguntar. Está bem. Eu não acreditava que a resignação fosse possível, e de fato não é resignação o que me tomou. Não estou resignada — estou feliz. Não desejo nada. Precisei lhe dizer estas coisas esta mesma noite. Não voltaremos a falar delas, não é? Nunca. É uma boa palavra, “nunca”. Sinto que ela exprime, além de qualquer palavra, a paz que o senhor me deu.

Esta carta é endereçada ao padre e logo em seguida há a notícia do falecimento. A título de contexto, Chantal, uma jovem desafiadora, filha da condessa, ouve a conversa da mãe às escondidas e depois acusa a padre de forçá-la a se livrar das lembranças do filho, e até ameaça-la falando sobre separação eterna. Basta ver o filme ou e ler a carta (ou ter ouvido a conversa), para ver que não foi nada disso. Porém, dado o falatório na cidade, haverá reunião com os superiores.

O que se espera é que a carta seja apresentada e Chantal, bem como os demais cidadãos, saim humilhados, mas não é isso o que acontece. Em um monólogo reflexivo, enquanto prepara sua refeição, o amadurecimento do jovem padre se apresenta.

Não fui nem tentado a falar da carta. Voltei à reitoria. Em vez de sofrer, senti como se um grande peso houvesse sido erguido. Aquele encontro com o pároco de Torcy foi como um ensaio para os que teria em breve com meus superiores. Descobri, com algo próximo da alegria, que não tinha nada a dizer. Por dois dias, havia temido ser acusado de algo que não fizera — e a honestidade me teria impedido de permanecer em silêncio. Mas agora, podia deixar que cada um julgasse minhas ações por si mesmo. Senti também grande alívio ao pensar que a senhorita Chantal poderia ter se enganado sinceramente quanto ao verdadeiro sentido de nossa conversa, que ela pode muito bem ter ouvido mal.

Imediatamente recordo de um episódio de formação pessoal narrado por D. Bernardo em Saint Bernard’s Three-Course Banquet, quando solicitou ao seu superior que corrigisse um erro de datas para a entrada no seu noviciado e recebeu como resposta simplesmente: “Eu poderia, mas não vou, e se você tem algum problema com isso pode ir embora”.

Eu me lembro que foi um momento decisivo tremendo para mim. E fiquei lá por uns 10 minutos, dizendo a mim mesmo: “é assim que as coisas serão: todas as minhas ideias brilhantes, como esta, terminarão assim. Ou eu aceito isso, ou eu rejeito. Naquele momento, pela graça de Deus, eu aceitei.¹

Em termos de psicologia, fazendo um rebaixamento para as teorias modernas, podemos enquadra isso na ACT, teoria de aceitação e compromisso, e seria errado não admitir a presença da aceitação numa dimensão puramente humana. Não é exatamente sobre isso — ou apenas isso — de que filme e livro falam, uma simples aceitação para melhor agir, mas algo que se coloca mais a alcance cotidiano, uma vez que, normalmente, na vida diária não vivamos momentos tão derradeiros quanto aqueles. É possível aceitar a realidade nos seus próprios termos, numa escala que vai desde as atividades mais simples, como trabalhar, relacionar, descansar, até aquilo que transcende a existência e é capaz de conter em um único momento, como no caso da condessa e do jovem, a síntese de uma vida. Em todos eles, o elemento fundamental é o mesmo: aceitar a realidade é condição da liberdade e da paz. Brigar com a realidade, embora tenha seu valor no tesouro da experiência, termina em estagnação e aprisionamento.

 

¹ Saint Bernard’s Three-Course Banquet. Cistercian publications, 2a ed. Kentucky: 2013. p. 13.

 

 

 

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