Há muito tempo venho refletindo sobre os atendimentos clínicos em psicologia. Mais especificamente, sobre o que antecede a escolha da abordagem terapêutica, aquilo que, na verdade, é prévio à própria psicologia. Sabemos que é possível escolher entre diversas formas de atuar, apresentadas durante a faculdade ou em especializações. Podemos optar pela Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) ou pela Psicanálise e, dentro dessas perspectivas, escolher entre diferentes escolas que divergem em pontos específicos. O problema da escolha, portanto, coloca-se desde o início.
No entanto, minha inquietação sempre foi anterior a isso. É uma pergunta, de certo modo, bastante simples: no que eu, necessária e pessoalmente, preciso acreditar para seguir esta ou aquela linha teórica? Em outras palavras, como Freud, Frankl, Beck e tantos outros concebem o ser humano e a vida? Como entendem a realidade e como procuram aplicar seus conceitos ao sofrimento psíquico real de cada paciente?
Das respostas a essas perguntas depende não apenas a maneira como atendo uma pessoa no consultório, mas o modo como eu mesmo entendo o que é ser uma pessoa. Por exemplo: existe vida após a morte? A resposta é capaz de alterar radicalmente a compreensão psicológica sobre as necessidades humanas, sobre nossas defesas contra o desconhecido, a morte, a doença, o prazer e a moralidade, porque o sim ou o não dado a essa pergunta necessariamente altera a estrutura ontológica humana. Se dissermos sim, a visão tripartite do homem, corpo, alma e espírito, faz sentido, ao menos como símbolo de uma realidade que se alcança apenas parcialmente; se dissermos não, a dualidade mente e corpo é mais que suficiente. Acontece que a direção adotada por cada uma dessas respostas modela todo o restante: define o continente das teorias que devem suportar a compreensão e a lida com o sofrimento humano, o que não é pouca coisa.
Além disso, considero impossível que um psicólogo passe a vida inteira estudando Freud, ou qualquer outro autor, internalizando seus conceitos e aplicando-os na prática clínica, sem que ele próprio seja modelado por isso. Em última instância, o profissional passa a ter essas ideias como lente de compreensão do mundo; em sua vida pessoal, torna-se necessariamente aquilo que estuda. Pode ser um clichê um tanto batido, mas permanece suficientemente verdadeiro: somos o resultado de nossas escolhas.
Diante disso, pergunto-me: como é possível que essa questão sequer apareça no horizonte de consciência de inúmeros psicólogos, professores e teóricos?
Durante a faculdade, ouvi incontáveis vezes que a escolha da abordagem é uma questão de afinidade: “você vê com qual mais se identifica, a que faz mais sentido para você, e se aprofunda nela”. Como é possível reduzir a escolha de um arcabouço teórico, que vai modelar o próprio ser de quem o adota, a uma mera questão de gosto? Raramente vi a discussão recuar aos pressupostos filosóficos que cada teoria implica, pressupostos que moldarão a percepção de mundo e, em uma palavra, a vida do profissional.
Para ilustrar a gravidade dessa escolha, recorro a dois trabalhos que escrevi na graduação: um sobre técnicas de entrevista e outro, um estudo de caso. A pergunta central que busquei responder neles foi a seguinte: nós tocamos de fato a realidade quando pensamos sobre ela, ou estamos definitivamente presos no subjetivismo? Ou seja: existe verdade objetiva, ou tudo o que afirmamos não passa de algo “da nossa cabeça”?
Não sou filósofo de ofício, mas sei o suficiente para entender que jamais se estuda um filósofo sem saber contra quem ele se levanta. Para não afetar os mais sensíveis, digo desde já que não me levanto com raiva nem em espírito belicoso, mas em oposição dialética, a fim de resolver as minhas próprias questões no fazer clínico de cada dia. Meus adversários, no caso, são Descartes e Kant, mais precisamente nos pontos da bifurcação e da coisa-em-si.
Ouvi muitas vezes a expressão “a minha verdade”, em oposição à “verdade do outro”. Sei que, no uso cotidiano, essa frase não é tão literal e costuma vir acompanhada de ressalvas, sempre permitindo a defesa-coringa comum em nossos dias: “não, o que eu quis dizer foi…”. Contudo, as palavras têm significado e precisam remeter à realidade; caso contrário, não significam nada. Dizer qualquer coisa e sair pela tangente quando confrontado é, na verdade, não dizer nada, ou não se responsabilizar por nada. Dizer que existe “a minha verdade”, e a do João, a da Paula, a de cada um, equivale a dizer que não existe verdade alguma. Ironicamente, a única verdade objetiva passaria a ser a de que “cada um tem a sua”, um contrassenso puro e simples.
Mais tarde, encontrei essas questões mais bem formuladas nos Cadernos de Joseph Maréchal (O Ponto de Partida da Metafísica), que abordam exatamente o problema do conhecimento. Também encontrei apoio na obra de Wolfgang Smith (A Ascensão Vertical) e, compondo esse tripé, nas reflexões de Olavo de Carvalho (Visões de Descartes). Esse conjunto jamais esgota o tema, mas é suficiente para fazer ver como as concepções da modernidade sobre o mundo e o homem estão impregnadas em nós, mesmo que não o percebamos, e como essas ideias moldam o pensamento, a percepção e o desenvolvimento científico. Os vivos, diz Comte, são governados pelos mortos.
Voltando à pergunta inicial: se assumirmos que não podemos tocar a realidade em si (a “coisa-em-si” kantiana) e que vivemos apenas no mundo das aparências, sem jamais penetrar a essência das coisas, deixamos de saber até se uma simples maçã é real ou pura aparência. Mas, se for assim, como é possível fazer psicologia? Se uma maçã, objeto que pego na mão, cuja cor vejo, cujo cheiro e sabor sinto, que posso fotografar, pintar, esculpir, não pode ser apreendida, quanto mais um pensamento, um sentimento ou o inconsciente de outra pessoa? Que absurdo! Aliás, a própria afirmação de que jamais tocamos a coisa-em-si é problemática: nessa hipótese, eu não posso apreender uma maçã, mas deveria ser capaz de apreender o pensamento de um filósofo sobre a realidade, algo muito mais sutil e evanescente que qualquer maçã ou palito de fósforo.
Se não posso acessar a essência de uma maçã, como poderia acessar o sofrimento psíquico, o mundo interior e os sonhos de um ser humano? Enclausurado em minha própria mente, como poderia entender algo de mim mesmo, quanto mais dos outros? A prática clínica se reduziria a mover-se de ilusão em ilusão, substituindo uma “verdade subjetiva” menos funcional por outra mais adaptada. E como poderíamos afirmar que uma ilusão é melhor que a outra, sem admitir que essa é apenas a “verdade” do psicólogo diante das ilusões atuais e potenciais do paciente? Chegaríamos ao absurdo de trabalhar apenas com “verdades fenomênicas”, superficiais, sob o pano de fundo miserável de que não existe verdade.
A consequência dessa visão para a prática clínica é que certos princípios técnicos se tornam obrigatórios, desdobramento lógico e inescapável dessa forma de pensar. Por exemplo, a ideia de que existe “a verdade do paciente” e de que é com ela que trabalhamos, transformando a terapia em mero encontro de subjetividades. Acontece que não existe “a verdade do paciente”; o que existe é a percepção dele sobre a realidade, percepção que pode ser falsa, inclusive, e causa de seu sofrimento.
Como dizia o psicólogo argentino Juan A. C. Müller, discípulo de Léopold Szondi: “neurose é uma mentira esquecida na qual o sujeito ainda acredita”. Ao tratar verdade e percepção como sinônimos, ou ao reduzir a verdade a uma operação mental, exclui-se a noção de realidade objetiva dos fundamentos teóricos. E o erro não permanece na experiência imediata: a desconsideração da verdade objetiva retroage sobre a construção e a cristalização, por assim dizer, da expressão formal de uma teoria, que servirá de modelo e de escola para os psicólogos futuros. Não é preciso dizer que esse erro pode desviar inteiramente uma tradição de tratamento do sofrimento mental.
Dias atrás, conversei sobre esse assunto com uma psicóloga de grande envergadura, justamente para colocar essas percepções à prova, numa confrontação dialética (ao menos de minha parte), disposto a não morrer abraçado às minhas ideias, mas a exercer o dito da filosofia antiga: verdade conhecida é verdade obedecida. Sua resposta foi excelente: sim, podemos ter acesso à verdade, mas isso é difícil e não acontece em todas as sessões. A verdade se assemelha a um horizonte para o qual sempre tendemos, mas que nunca alcançamos plenamente. É uma imagem maravilhosa, que distingue a “verdade absoluta”, acessível apenas a um ser divino, daquela parcela de verdade que podemos, humildemente, acessar aqui e agora.
Isso está correto e ecoa as advertências de grandes mentes da humanidade. Platão, no Fédon, diz que, na ausência de uma revelação divina, devemos nos agarrar à razão mais firme. Creio que isso se aplica inclusive à própria teologia, o que jamais dispensa o homem de fazer seus melhores esforços pelo conhecimento. É a busca contínua pelo Supremo Bem, reconhecendo a condição humana e seus limites.
Por fim, a questão permanece: como é possível pensar e fazer psicologia sem se comprometer, não com uma resposta absoluta, mas com a busca sincera pelo conhecimento da verdade? Sem realizar esse recuo e pensar naquilo que é mortalmente sério, que diz respeito à minha própria existência, e não apenas a provas, pares e “legados”? Como podemos ignorar questões tão fundamentais?
Creio que não podemos, e que negá-las implica automaticamente negar a si mesmo.