Vício em telas · Parte 1 de 4
Você abre o celular para responder a uma mensagem e, quando percebe, já percorreu notícias, vídeos e comentários. A intenção inicial desapareceu, mas o gesto continuou. O que acontece nesse intervalo? Parte da resposta está na atenção e na aprendizagem; outra parte, no que a tela oferece naquele momento da vida.
A pesquisa encontra associações entre uso problemático de smartphones e diferenças em medidas de funcionamento cerebral. Isso merece atenção, mas exige precisão: encontrar uma diferença entre grupos não demonstra que o celular danificou o cérebro. Também não permite reconhecer uma dependência contando horas de uso.
Nesta série, Vício em telas nomeia uma discussão sobre a dificuldade de regular o uso e seus possíveis prejuízos. Não é um diagnóstico dirigido a quem lê. Trabalhar, conversar com alguém distante e rolar um feed sem conseguir parar são experiências diferentes, ainda que aconteçam no mesmo aparelho.
O que as imagens do cérebro mostram
Um estudo comparou 39 pessoas classificadas como usuárias problemáticas com 49 participantes de um grupo de comparação. Encontrou menor volume de substância cinzenta em uma região do córtex orbitofrontal no primeiro grupo (Lee et al., 2019). Outros trabalhos investigaram diferenças de conectividade, isto é, a relação entre sinais de atividade de diferentes regiões.
Esses achados não são fotografias de um cérebro antes e depois de usar o celular. Em boa parte dessa literatura, os pesquisadores observam pessoas diferentes em um mesmo período. Sem acompanhar como o padrão se desenvolveu, não se pode determinar se uma característica cerebral precedeu o uso, resultou dele ou se ambos se relacionam com outros fatores.
Montag e Becker (2023) destacam justamente essas limitações: amostras pequenas, medidas heterogêneas e predominância de estudos transversais. O campo oferece hipóteses relevantes, mas ainda não uma explicação única sobre o que o smartphone faz ao cérebro de cada pessoa.
A direção dessa relação importa também para o cuidado: dificuldades de atenção, sofrimento emocional e condições de trabalho podem estar presentes antes de o uso se intensificar. Tomar o aparelho como explicação suficiente pode ocultar essas diferenças. Uma investigação responsável precisa considerar o comportamento junto de seu contexto, em vez de escolher antecipadamente uma causa.
Um experimento posterior investigou 25 adultos jovens antes e depois de 72 horas de restrição ao smartphone. Foram observadas mudanças na resposta cerebral a imagens relacionadas ao aparelho (Schmitgen et al., 2025). O resultado mostra que a resposta a esses estímulos pode variar depois de uma restrição breve. Não estabelece um prazo de recuperação cerebral, nem demonstra uma desintoxicação comparável à de substâncias.
A atenção entre uma tarefa e outra
Uma pergunta mais próxima do cotidiano é o que acontece com a tarefa que fica para trás quando a tela nos chama. Ward et al. (2017) encontraram, em experimentos, pior desempenho em algumas tarefas cognitivas quando o próprio smartphone estava mais próximo, mesmo sem ser utilizado. A hipótese ficou conhecida como brain drain: a presença do aparelho consumiria parte dos recursos disponíveis.
A repercussão foi maior do que a segurança da conclusão. Uma meta-análise de 56 estudos, com 7.093 participantes, encontrou um efeito agregado negativo para a memória de trabalho, mas não para os demais domínios examinados. O autor também apontou problemas metodológicos e baixo poder estatístico em muitos estudos (Parry, 2024). Portanto, o efeito da mera presença do telefone permanece mais limitado e incerto do que a ideia de uma drenagem generalizada da inteligência.
A memória de trabalho permite manter e manipular informações enquanto pensamos: acompanhar um argumento, fazer uma conta, reunir elementos de uma decisão. Ainda assim, um resultado médio em tarefas de laboratório não autoriza concluir que toda pessoa perderá essas capacidades ao deixar o aparelho sobre a mesa.
Já a alternância entre atividades traz outra questão. Nos experimentos de Sophie Leroy (2009), parte da atenção permanecia ligada à tarefa anterior, sobretudo quando ela ficava inacabada, dificultando o desempenho seguinte. O estudo não era sobre celulares, mas ajuda a pensar por que sair de uma conversa digital e voltar a uma leitura pode exigir mais do que recolocar os olhos na página.
Há uma diferença entre manter o celular por perto e interromper repetidamente o que se está fazendo. Misturar essas situações produz uma explicação simples demais. A pergunta útil é concreta: em que momentos a checagem quebra uma continuidade que você gostaria de preservar?
O que faz a checagem se repetir
Nem toda abertura do aplicativo tem a mesma finalidade. Uma pode trazer uma mensagem esperada; outra, uma novidade; outra, apenas a possibilidade de que algo tenha acontecido. A disponibilidade permanente desses encontros ajuda a compreender a facilidade de repetir o gesto, mas não basta para explicar por que algumas pessoas sofrem com ele e outras não.
Reduzir essa experiência a uma dose de dopamina por curtida encurta demais a explicação. As pesquisas citadas não demonstram que todo uso de redes sociais rebaixa uma suposta linha de prazer, nem que atividades comuns necessariamente perdem a capacidade de interessar. A comparação com substâncias pode sugerir perguntas de pesquisa; não torna os fenômenos equivalentes.
Também é possível que o uso se repita porque interrompe algo desagradável: uma espera, uma preocupação, um sentimento de exclusão. Nesse ponto, a investigação deixa de ser apenas sobre o mecanismo e passa a considerar a função. O que essa checagem torna suportável? O que ela adia? O alívio dura ou logo exige uma nova abertura?
Uma leitura clínica: o lugar que a tela ocupa
A psicanálise oferece conceitos para formular essas perguntas. Eles pertencem a outro plano de compreensão e não são resultados dos exames de imagem.
Winnicott (1953) descreveu os objetos transicionais e uma área de experiência entre a realidade interna e o mundo compartilhado. Um objeto pode participar da maneira como a criança atravessa a separação e mantém alguma continuidade do vínculo. O conceito não se reduz a um objeto que acalma, e não deve ser aplicado automaticamente ao smartphone.
Como aproximação clínica, porém, ele convida a perguntar como alguém usa o aparelho para lidar com presença e ausência. Uma conversa pode sustentar um vínculo importante. Uma checagem repetida pode expressar dificuldade em suportar que o outro não responda. O mesmo dispositivo participa de experiências muito distintas; o significado depende da história e da situação de quem o utiliza.
Khantzian (1997), ao formular a hipótese da automedicação no uso de substâncias, destacou a busca de alívio para estados afetivos difíceis. Transportar essa hipótese para o celular requer cuidado: não se trata de uma comprovação de que todo uso insistente esconde um trauma. A contribuição está em investigar o que a repetição oferece àquela pessoa, sem antecipar a resposta.
Essa perspectiva não transforma o sofrimento em falta de disciplina. Também não torna inúteis as mudanças no ambiente. Reduzir interrupções pode ajudar; compreender por que se precisa tanto delas pode abrir outra dimensão do trabalho. Uma medida não precisa esperar pela outra.
O ponto de partida é observar o padrão sem converter cada hábito em sintoma: quando acontece, que lugar ocupa e o que começa a prejudicar. A história de uma pessoa não cabe no tempo de tela, assim como sua relação com o aparelho não cabe numa imagem do cérebro.
Para continuar
A próxima parte examina como o próprio aplicativo favorece a permanência: Por que é tão difícil sair do aplicativo.
Na série Vício em telas: 1. Cérebro e atenção · 2. Design · 3. Custos · 4. Práticas.
Israel Machado é psicólogo clínico em Passo Fundo, RS. CRP 07/43950. Atendimento individual com orientação psicanalítica, presencial e online.