TEXTOS E LEITURAS

Decálogo 4 — Kieślowski, desejo e paternidade

Imagem de Decálogo, de Krzysztof Kieślowski

Decálogo (Dekalog, 1988), de Krzysztof Kieślowski, reúne dez filmes feitos para a televisão polonesa. As histórias gravitam em torno de um conjunto habitacional de Varsóvia; personagens se cruzam e deixam entrever uma vida comum maior do que cada enredo. Isso me lembra A Comédia Humana, de Honoré de Balzac.

Inspirados nos Dez Mandamentos, os episódios apresentam situações humanas concretas e as dificuldades de uma escolha moral. Recordo aqui a questão aristotélica da distância entre a generalidade da lei e a particularidade da situação. A regra não dispensa discernimento: exige-o.

O quarto episódio permite investigar o mandamento de honrar pai e mãe. A formulação vale para todos; compreender o que ela pede nesta família, neste tempo e diante deste conflito é tarefa de cada pessoa. Sem essa investigação, corremos o risco de cumprir apenas aquilo que imaginamos que o mandamento queira dizer.

A leitura a seguir revela acontecimentos centrais e o desfecho do episódio.

A carta e o desejo

Anka vive com Michał, que a criou após a morte da mãe. Uma carta deixada por ela introduz a possibilidade de que ele não seja o pai biológico. A leitura do filme como descoberta da não-paternidade, porém, depende justamente daquilo que Kieślowski mantém incerto. Interessa-me uma operação anterior à confirmação de qualquer informação: Anka deseja Michał e encontra na carta a possibilidade de autorizar esse desejo.

A carta não funciona apenas como portadora de um conteúdo. Ela organiza a cena em torno de si. O que contém, o que Anka diz que contém e o uso que faz disso não são a mesma coisa. Numa aproximação com Lacan, podemos pensar na força de um significante cujos efeitos excedem a informação que supostamente comunica.

Enquanto permanece fechada, a carta sustenta possibilidades. Anka afirma que a mãe revelou a inexistência do vínculo biológico; depois diz ter inventado o texto e imitado a caligrafia materna. A mudança ocorre após fracassar em seduzir Michał, como se fosse possível restaurar o estado anterior. O espectador, como ele, precisa lidar com a incerteza.

Eu traduziria essa dinâmica assim: há o desejo, a realidade e o esforço de articulá-los. A declaração de que Michał não é seu pai parece oferecer uma permissão; diante da recusa, o retorno à versão anterior tenta recompor a relação.

Em termos freudianos, podemos aproximar o conflito da tensão entre as exigências pulsionais, as proibições e o trabalho do ego, que precisa considerar também a realidade. Não se trata de distribuir mecanicamente cada personagem entre id, ego e superego, nem de diagnosticar Anka. É um modelo de leitura para pensar como uma narrativa pode servir ao desejo.

A hipótese edípica também se apresenta: a filha deseja ocupar um lugar que exige a renúncia à relação filial tal como foi vivida. A morte da mãe dá a esse desejo uma configuração particular no enredo. Não significa que a ausência materna produza, por si, essa dinâmica, ou que só a presença física de uma mãe pudesse estabelecer um limite. O limite terá de aparecer na própria relação entre os dois.

O vínculo não depende apenas do sangue

Aqui está minha tese. Se Anka fabrica a revelação para realizar o desejo, instrumentaliza a confiança de Michał e o vínculo que os une. Se a revelação é verdadeira, ainda assim a ausência de parentesco biológico não apaga os anos de criação, cuidado e convivência. Nessa leitura, ambas as hipóteses colocam em questão a honra devida à paternidade vivida.

O problema moral não se dissolve com uma resposta genética. Um pai de criação não deixa de ser pai porque se descobre que não houve transmissão de sangue. A carta pode alterar o conhecimento da origem; não desfaz retroativamente uma história de cuidado.

Isso também esclarece por que o desejo e sua realização precisam ser distinguidos. Reconhecer um desejo não equivale a escolher agir sobre ele. Minha atenção está na tentativa de reorganizar os fatos e o vínculo para torná-lo realizável, e na responsabilidade implicada nessa passagem.

No fim, a queima da carta deixa o conteúdo sem resolução completa. Kieślowski não entrega ao público a informação que encerraria a dúvida. Temos de pensar no que permanece, mesmo sem ela. A suspensão é uma das forças do filme: o espectador não recebe uma solução pronta, mas uma situação que exige sua participação.

O mesmo vale para o mandamento. O episódio não o converte numa regra de aplicação automática nem o esvazia diante da complexidade. Põe diante de nós uma vida concreta, com afetos contraditórios, para que a reflexão moral não fique protegida pelas abstrações.

A recusa que preserva

Há uma segunda face desse problema: a resposta de Michał. Se Anka tenta alterar a relação, ele precisa decidir o que fará com seu lugar de pai. O mandamento, em sua formulação literal, dirige-se aos filhos (Êxodo 20,12). Vejo em Michał um cumprimento indireto: ele preserva, diante da filha, a paternidade que ela põe em questão.

O filme não o apresenta como alguém sem ambivalência. Ele percebe o desejo de Anka, deseja que ela se ligue a outro homem e precisa lidar com o que a situação desperta nele. Sua responsabilidade não desaparece diante dessa dificuldade. É justamente por existir tensão que sua recusa tem peso.

Quando Anka se oferece, Michał não cede. Eu traduziria o sentido do gesto, sem tomá-lo como fala literal, assim: não vou abandonar meu lugar de pai. Essa permanência preserva um limite que a incerteza biológica ameaça desfazer.

Mais que instituir uma relação nova, ele se recusa a converter em outra coisa aquela que já existe. Honra a paternidade que possui ao continuar responsável por ela. A maturidade aparece nesse trabalho de sustentar o vínculo, mesmo quando o desejo convida a abandoná-lo.

É nessa altura que vejo a importância formativa do cinema. Uma obra não garante o amadurecimento de quem a contempla, mas pode oferecer condições para ele: figuras, conflitos e decisões que ampliam nossa capacidade de perceber.

O espectador pode levar consigo mais que um parecer sobre os personagens: aprende a articular cenas, intenções e consequências. Esse exercício de atenção não oferece imunidade ao engano, mas pode tornar menos fácil a adesão a uma explicação cômoda ou a uma manipulação barata.

Acredito que fortalecer a inteligência e amadurecer no Bem são tarefas de todos. Buscar obras que favoreçam esse movimento é uma forma de cuidar da própria liberdade. Elas não pensam em nosso lugar; exigem que pensemos melhor.

Espero mostrar, nesta série sobre psicologia e cinema, algo desse alargamento vertical da alma. O episódio termina; o trabalho que ele pede continua. Entre o universal do mandamento e a particularidade de cada vida, permanece a responsabilidade de discernir o que fazemos com os vínculos que recebemos.