Dekalog — Kieslowski

Existe uma série de dez filmes dirigidos por Kieslowski chamada Decálogo (Dekalog, 1988–89), feita para a TV polonesa. Toda a série se passa em um único local, em Varsóvia, com personagens diferentes que se cruzam em determinados momentos de cada história, o que me lembra A Comédia Humana, do escritor francês Honoré de Balzac.

Esses filmes curtos abordam, sem nomeá-lo diretamente, cada um dos Mandamentos e, junto com cada um, uma situação humana real, com um dilema moral e as dificuldades que uma escolha acertada exige. Outro ponto de que me recordo ao entrar em contato com a obra é a questão levantada por Aristóteles, mais ou menos nestes termos: toda lei é universal e abstrata, e toda situação humana é particular e concreta. Como o filme a ser comentado hoje é o de número quatro da série, entendido pela crítica como referente ao quarto mandamento, o exemplo que darei procura ir ao encontro do episódio. “Honra teu pai e tua mãe”: eis o universal abstrato, dado para todos. Agora, o que significa eu, em 2026, morando no Brasil, honrar o meu pai e a minha mãe? Essa é a resposta que toda pessoa que deseja cumprir o mandamento deve dar, ou ao menos investigar o melhor possível, sob pena de cumprir não o mandamento, mas o que se imagina que ele queira dizer. Evidentemente, há um sem-número de universais abstratos aguardando a mesma atitude.

Já toquei brevemente na profundidade da meditação e da reflexão a que o cinema dos anos 1920 a 1980 convida o espectador, e em como o imaginário popular de meio século atrás tinha possibilidades hoje aparentemente desconhecidas. Este é mais um desses exemplos. Vamos ao filme.

A leitura corrente de Dekalog 4, a de que se trata da descoberta da não-paternidade biológica e do reordenamento das emoções a partir dessa descoberta, não está propriamente errada, mas eu entendo o filme de uma forma mais simples e direta. Anka deseja o pai e encontra na carta deixada pela mãe já falecida uma oportunidade de efetivar o seu desejo. Isso poderia ser visto dentro dos conceitos de significante e significado, na chave que Lacan lhes deu: a carta tem um conteúdo objetivo, mas é instrumentalizada pelo desejo ao manipular a questão da paternidade biológica. Instrumentalizar a carta significa utilizá-la não como portadora de informação, mas como objeto que organiza a cena em torno de si. É por funcionar como objeto fechado que a carta organiza o desejo de Anka: lida, perderia essa função; encenada, conserva-a. Apesar disso, entendo que a operação moral mostrada no episódio precede a abertura da carta e independe do que ela de fato diz.

Kieslowski não revela o conteúdo verdadeiro; precisamos confiar em Anka. Com isso, deixa o espectador nas mãos da filha, como o pai, e transmite ao público a incerteza com a qual o próprio Michal deve lidar: ora ela recita as palavras da mãe, “Michal não é seu pai”; ora diz que inventou tudo, copiando a caligrafia, e que o verdadeiro conteúdo está preservado em outra gaveta. Curiosamente, ela só faz isso após fracassar em seduzir Michal, como numa busca por restauração do estado anterior. Eu traduziria a dinâmica, resumidamente, assim: há o desejo, a realidade e uma articulação entre ambos.

Cena 1: Anka e Michal | Cena 2: Anka em dúvida sobre ler a carta

Talvez aqui, em termos freudianos, possamos pensar em Id, Ego e Superego formando a dinâmica do conflito neurótico, em uma palavra, do conflito entre instâncias do psiquismo. De forma bem simplificada, por um lado existe o desejo puro e sem reservas, por outro a moralidade, Id e Superego respectivamente, e entre essas duas forças há o Ego, o princípio de realidade, tentando articulá-las: realizar o desejo sem ferir a moralidade, ou sem ocasionar a autodestruição. Daí Anka afirmar que Michal não é seu pai, conferindo alguma liberdade moral à realização do desejo, e também daí o retorno ao status anterior, frente à recusa de Michal, restaurando, por assim dizer, sua parternidade.

No caso de Anka, as consequências daquilo que desejava parecem momentaneamente apagadas, tamanho o domínio que a vontade de dormir com o pai exerce sobre seu psiquismo. Daí para o Édipo é um pulo: uma vez que a mãe faleceu e o filme não apresenta um terceiro personagem (exceto um namoradinho cheio de hormônios, que não pode oferecer mais do que isso), Anka não tem diante de si nenhuma necessidade de renúncia. Dito de outro modo, a ausência da mãe, ou da função materna, deixa o “caminho livre” para a filha.

Sabemos que isso é um modelo explicativo da dinâmica da realidade psíquica, que pode evidentemente ser contestado; contudo, se non è vero, è ben trovato. Que o desejo de Anka ocupe o lugar onde deveria estar a renúncia ao pai como objeto erotizado é hipótese psicológica que ajuda a compreender o caso sem atenuá-lo.

Aqui está a minha tese. Diante da carta, Anka tem apenas dois caminhos possíveis, e ambos confirmam que o quarto mandamento é violado. No primeiro, ela mente: o teor que recita não é o teor real, ou é o teor real, mas exibido com a intenção de criar a cena. Quando o intento de dormir com o pai fracassa (ao vê-la se oferecer nua, Michal a cobre, dorme no sofá, parte pela manhã), ela desfaz a operação ao queimar a carta. No segundo, ela diz a verdade: a carta é real, ela de fato não é filha biológica, e desconsidera com isso vinte anos de criação, de cuidado, de vínculo formado, decidindo que a ausência de sangue desfaz completamente a paternidade. Não há terceira possibilidade. Nos dois únicos cenários, o vínculo filial verdadeiro é violado ou desconsiderado: se mente, viola por fabricação; se diz a verdade, viola por desprezo do que foi vivido. O tipo de paternidade, biológica ou de criação, não altera o quadro moral. Kieslowski mantém deliberadamente a indecidibilidade até o fim, e a suspensão da leitura, quando Anka chega ao verso “Michal não é teu pai”, é a recusa em resolver a questão para o espectador. Uma vez que o filme não oferece essa dissolução do problema, o público terá ele mesmo, cada qual, que pensar nas soluções e nas questões morais envolvidas. Isso é dar ao filme uma espécie de universal, mais ou menos abstrato, e deixar a cada um avaliar particularmente a situação: a do filme, claro, mas também as suas próprias, com seus próprios temas e conflitos. Toda a série é assim.

Mas isso não é tudo. Há uma segunda face do mesmo mandamento. Se até agora pensamos em Anka e na honra da paternidade, no outro lado da moeda está Michal e sua própria resposta ao que se passa entre ele e a filha. Dekalog 4 não é apenas o filme da tentativa de violação por Anka; é também o filme do cumprimento por Michal. O mandamento, em sua formulação literal (Êxodo 20,12), dirige-se aos filhos; vejo em Michal, porém, o seu cumprimento por via indireta: ele o cumpre na filha, ao não permitir que a violação se consume. Michal percebe a sensualidade e o desejo de Anka, articula em determinado momento o desejo de que ela se ligue afetivamente a outro homem (desejo de pai e talvez também defesa contra o próprio desejo) e, diante da tentativa de sedução, não cede. Sua recusa ao desejo da filha equivale a dizer: “eu não vou sair do meu lugar; você está segura comigo”. Essa é a fórmula tácita do que ele faz, e ela preserva tanto o momento presente quanto o futuro. Zizek descreve corretamente esse gesto como restauração da paternidade simbólica; o que cabe acrescentar é que essa restauração se dá não como gesto positivo, mas como recusa de desfazer o que já estava posto, independentemente da questão biológica. Michal honra a paternidade que possui ao não renunciar a ela e ao não converter a relação com Anka em outra coisa. É, obviamente, o movimento maduro diante da imaturidade. Existe sim o desafio próprio dele, pois Anka é jovem, sensual e lhe deseja, e ainda por cima afirma a possibilidade da relação sexual, justificando-a por uma suposta inexistência da relação filial. Isso acrescenta alguma dificuldade ao personagem, que pode reconhecer nela a mulher e o desejo (que apela ao homem e seu desejo também) e faz da recusa algo mais do que um mero não, sem peso e sem custo.

Vejo a importância do cinema, e de toda obra de arte, especialmente como ferramenta formativa. O filme não pode garantir por si mesmo o crescimento do espectador; pode apenas dar a ele a oportunidade desse desenvolvimento. Acredito que o fortalecimento da inteligência, da capacidade de perceber e articular as várias cenas e conteúdos de todo tipo, bem como o amadurecimento no Bem, é um dever de todos e que buscar as formas de arte que ofereçam essa possibilidade é quase uma questão de sobrevivência. Sem isso, ficamos como que bichinhos indefesos, permeáveis a qualquer manipulação barata que se apresente, inclusive no cinema.

Espero conseguir mostrar nesta série sobre psicologia e cinema a altura e a profundidade, esse alargamento vertical da alma, possível a todo aquele que o deseja, e com isso a posse da própria inteligência e o desenvolvimento de uma autoconsciência mais capaz de lidar com os conflitos internos e com a realidade.

 

 

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