Clínica, Linguagem e Louis Lavelle

Recentemente, conversava com uma psicóloga experiente, com décadas de consultório, alguém que me ensina muito e a quem devo parte de quem sou como profissional. Falávamos sobre a importância de distinguir um sentimento do outro, como a diferença entre amor e afeto, sobre o bom uso da linguagem para isso e sobre como ela pode nos beneficiar ou prejudicar enormemente, dependendo de como é empregada.

Mais especificamente, discutíamos a necessidade de encontrar clareza e estabelecer fronteiras entre as palavras e, consequentemente, entre aquilo para o que apontam na experiência real de cada um. É comum, por exemplo, perder distinções ao menos suficientes (a definição completa é por natureza impossível) sobre o que sejam o amor, a paixão, o afeto e outras formas de nomear os sentimentos de gostar, desejar, ser grato a alguém. Quando isso se perde, instala-se uma confusão que dificulta o entendimento da própria vida interior e afeta o pensar, o sentir e o agir. Não nomear suficientemente nossos estados emocionais significa perder a capacidade de lidar com eles, ficando à deriva de seus caprichos indefinidos, que pairam e “pesam” sobre nós. Esse fenômeno não é exclusivo do consultório, claro; é inerente ao ser humano e depende, em grande medida, do uso da inteligência e da capacidade de perceber com precisão o que se passa dentro de si.

Isso nem sempre é fácil e aponta para uma certa sensação de ser estrangeiro a si mesmo, ou de um aprisionamento num angustiante “não sei o porquê nem o que é, apenas me sinto assim”. Por vezes, é possível jurar de pés juntos que se sente uma coisa, quando na verdade é outra; por exemplo, como veremos a seguir, na diferença entre amor e afeto. Daí ao trabalho do autoconhecimento, da consciência de si, é um pulo.

Essa conversa me remeteu ao filósofo francês Louis Lavelle. No trecho que cito adiante, ele apresenta reflexões profundas sobre o amor e a posse. Acredito, com o poeta Bruno Tolentino, que o papel de um escritor é o de nos dar “um jeito memorável de dizer”, isto é, articular uma verdade de uma forma de que eu mesmo não seria capaz, mas que gostaria de ter sido. Sinto algo parecido com o que o psicanalista Thomas Ogden descreve em O que significa estar vivo, ao mencionar o trabalho de um colega:

Sempre admirei profundamente a análise que o Adriano M. criou com esse paciente – e continuo a admirá-la. Penso nela com frequência. É uma análise que eu não poderia ter criado. Desejaria tê-la criado, mas devo aceitar o fato de que nenhum analista desenvolve uma análise com seu paciente da mesma maneira que outro. (OGDEN, p. 33-34)

Partilho desse mesmo desejo em relação a Lavelle: gostaria de ter escrito o que ele escreveu. Compreendo, porém, que os dons se distribuem de formas diferentes e que a descrição feita por ele serve como um farol para a clínica, embora cada paciente deva trilhar seu próprio caminho até alcançar suas próprias compreensões. Abaixo, as palavras de Lavelle sobre o tema.

Desejo e Posse

Pensa-se com demasiada frequência que o amor é um movimento violento que nos leva para um objeto do qual estamos privados. Confunde-se, então, o amor com o desejo. Ele é menos estudado na posse, como se só aparecesse com toda a sua força quando encontra obstáculos que o impedem de se satisfazer. Imagina-se também que a posse é como um desejo que sempre se extingue e sempre se reacende. No entanto, se o amor não passa de um movimento dirigido a uma finalidade, tão logo essa finalidade é alcançada e ele pode exercer-se sem obstáculo, deixa de existir. […] Por isso o amor é perceptível à consciência sobretudo quando é infeliz, quando é uma aspiração poderosa e insatisfeita. Então uma dualidade violenta aparece em nós entre o que desejamos e o que possuímos: e nesse dilaceramento de nós mesmos se revela a profundidade da paixão. Para a maioria dos homens, o amor não se prolonga além da posse; quando esta está assegurada, suscita o tédio, a fadiga e a aversão. Precisam de crises de incerteza e do ciúme para que sua sensibilidade seja sacudida. Buscam amores turbulentos que só vivem de esperança e de temor […]. É preciso ter muita sabedoria e força para preferir um amor equilibrado e pleno que nos permita desfrutar, no presente, e sem jamais esgotá-la, de uma felicidade à qual o pensamento do futuro não provoca medo […]. Os que conhecem melhor o amor não são aqueles cujo desejo é mais forte, pois a posse os decepciona, mas os que sabem abraçar, na posse, a colheita mais rica.

Amor e Afeto

Fala-se por vezes de amor onde o que existe é confiança, retidão, estima e admiração. Tais sentimentos não substituem o amor. Não bastam para criar aquela comunicação total entre dois seres que já não podem ter segredos um para o outro, que penetram um no outro até o extremo de sua intimidade e confundem o universo com aquele círculo perpetuamente ampliado da dupla vida interior. […] O esforço generoso para se dar ao ser que se estima é suficiente para mostrar que não se ama esse ser com amor. E, no entanto, o afeto, a sinceridade, a perfeita confiança que reinam entre dois seres são com frequência suficientes para levar cada um deles à altura das melhores partes do outro.

É preciso fôlego para uma leitura assim. Aqui vale o conselho clássico para o estudo da filosofia: uma leitura lenta, que preencha de significados e de experiências pessoais o conteúdo registrado nas palavras. É como se os conceitos precisassem ser “desembrulhados” para revelar a percepção da realidade que condensam.

Como isso atinge meu pensamento clínico? Na compreensão de que fenômenos tão elevados e complexos como o amor, a bondade e a beleza, tudo aquilo que transcende nossa existência e nossa capacidade imediata de apreensão, exigem humildade e esforço contemplativo. Somente ao entender melhor a mim mesmo através dessa reflexão serei capaz de oferecer um trabalho mais eficaz a quem me procura como psicoterapeuta.

A psicoterapia lida com elementos inesgotáveis, infinitos por natureza, e exige do profissional uma busca contínua por desenvolvimento pessoal. A clareza conceitual e linguística abordada aqui é apenas um aspecto dessa infinitude, embora seja um dos que considero mais fundamentais.

Não concebo uma psicologia que não tenha um compromisso permanente com a filosofia, a literatura, a música e as artes. Retirar essa dimensão não apenas do fazer clínico, mas da própria concepção de psicologia, equivale a amputá-la pela raiz. O fato de não podermos abarcar tudo isso integralmente em uma única mente humana não nos dá o direito de agir como se essa vastidão não existisse.

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