TEXTOS E LEITURAS

Pequenas práticas para mudar a relação com o celular

Vício em telas · Parte 4 de 4

Mudar a relação com o celular pode começar por uma escolha pequena: proteger um momento do dia que você gostaria de viver de outro modo. Nos artigos anteriores, passamos pela atenção, pelo design e pelos custos possíveis do uso. Agora é hora de aproximar essa compreensão da rotina.

As sugestões abaixo são experiências gerais, não um protocolo de tratamento. Algumas têm apoio em estudos; outras são maneiras práticas de observar o próprio hábito. Seus efeitos variam. Reduzir minutos pode ajudar, mas o objetivo é recuperar espaço para o que importa na sua vida.

Quatro mudanças no ambiente

  • Experimente a escala de cinza. Retirar as cores da tela pode diminuir seu apelo. Estudos encontraram redução no tempo de uso, mas os ganhos não se estendem necessariamente ao sono, ao humor ou à produtividade (Dekker e Baumgartner, 2024; Zimmermann e Sobolev, 2023). Procure “escala de cinza” ou “filtros de cor” nos ajustes do aparelho; o caminho varia conforme o sistema. Adapte a medida se a cor for necessária para alguma atividade.
  • Retire da tela inicial os aplicativos que você abre sem intenção. Criar uma etapa adicional pode servir de lembrete: era isso que eu queria fazer? É uma experiência simples, sem garantia de que poucos segundos farão o impulso desaparecer.
  • Escolha quais notificações merecem interromper você. Preserve avisos necessários ao trabalho, ao cuidado de alguém ou à segurança. Silenciar os demais reduz os chamados do aparelho, mas não garante menos uso: um ensaio com 205 participantes não encontrou redução de tempo ou checagens após uma semana sem notificações (Dekker et al., 2025).
  • Proteja um período antes de dormir. Se o celular prolonga a noite, experimente deixá-lo fora do alcance ou em outro cômodo, mantendo os contatos necessários. A proposta é diminuir oportunidades de continuar usando e reservar um tempo para encerrar as atividades. Observe se essa organização facilita respeitar o horário em que você gostaria de descansar.

Escolha uma ou duas mudanças compatíveis com sua rotina. Observe durante alguns dias o que melhora, o que não muda e o que fica mais difícil. Não há um prazo universal de adaptação. Se a estratégia atrapalha uma necessidade real, ajuste-a.

Cinco práticas para acompanhar o hábito

  • Defina um período a preservar. Pode ser uma refeição, uma leitura ou parte do trabalho. Use os recursos de limite de aplicativos e de concentração disponíveis no aparelho, se forem úteis. O limite é um apoio à escolha; não precisa virar uma disputa permanente com você mesmo.
  • Registre a intenção de algumas checagens. Antes de abrir, pergunte: “Para quê?”. Se quiser, anote o aplicativo, a situação e o motivo. Um registro breve pode ajudar a perceber padrões sem exigir vigilância sobre cada gesto. Não é necessário transformar a observação em outra cobrança.
  • Prepare uma alternativa concreta. Em vez de apenas “usar menos”, escolha algo que caiba naquele intervalo: tomar café sem o feed, conversar com alguém, caminhar um pouco. Considere o que o celular estava oferecendo. Uma alternativa para descansar pode ser diferente de uma alternativa para encontrar companhia.
  • Retome uma atividade que peça continuidade. Ler, tocar um instrumento, cozinhar ou desenhar são possibilidades, conforme seu interesse. Comece com uma duração possível. A leitura pode valer pela experiência de acompanhar um pensamento e abrir um tempo diferente na rotina. O ritmo se ajusta à sua disponibilidade.
  • Deixe algum intervalo sem conteúdo. Uma caminhada curta sem fones ou parte de uma refeição podem ser suficientes para experimentar. Observe o que aparece, sem exigir calma nem interpretar todo desconforto como dependência. Se ficar difícil demais, reduza o intervalo ou procure companhia e apoio.

O que a pesquisa permite esperar

Olson et al. (2023) estudaram um conjunto de estratégias, incluindo reduzir notificações e usar escala de cinza. No estudo com grupo de comparação, houve redução de uso problemático e tempo de tela, além de melhora na qualidade do sono. Como as medidas foram combinadas, não se pode atribuir o resultado a uma configuração isolada.

Já Zimmermann e Sobolev (2023) encontraram redução do tempo de uso com escala de cinza, sem melhora imediata demonstrada no bem-estar ou no desempenho acadêmico. Essa diferença importa: um recurso pode ajudar a usar menos e, ainda assim, deixar outras dificuldades intactas. Resultados médios também não antecipam o que acontecerá com cada pessoa.

Para avaliar uma mudança, considere o que você queria preservar. Dormiu no horário desejado? Conseguiu acompanhar uma conversa? Houve espaço para alguma atividade escolhida? O contador de minutos é uma informação entre outras, não uma nota sobre sua capacidade de conduzir a vida.

O que está além do ambiente

Nos capítulos anteriores, propus observar a função que a tela ocupa. Ela pode oferecer companhia, distração, reconhecimento ou uma pausa nas preocupações. Mudar o acesso ajuda em algumas situações, mas não responde automaticamente àquilo que tornou o acesso tão necessário.

Se o aparelho preenchia a solidão, sua ausência não cria um vínculo. Se afastava uma preocupação, desligá-lo não resolve a questão. Essa constatação não invalida a mudança: indica que há outra necessidade a considerar. Talvez seja preciso retomar uma conversa, rever uma rotina exaustiva, encontrar uma atividade compartilhada ou compreender melhor um sofrimento.

Novos interesses podem começar sem entusiasmo imediato. Uma página lida com dificuldade, uma caminhada breve, uma tentativa de aprender algo: são experiências que ganham sentido no tempo de cada pessoa. Não precisam ser mais produtivas ou impressionantes do que o uso anterior. Precisam ter alguma relação com o que se deseja viver.

Também convém deixar espaço para o uso que faz bem. Há encontros, conhecimento e descanso nas telas. A mudança pode consistir em distinguir essas experiências daquelas em que você continua, apesar de já não querer continuar.

Quando conversar com um profissional

Vale considerar ajuda quando o uso vem acompanhado de sofrimento persistente ou prejuízos no sono, no trabalho, nos estudos ou nos vínculos; quando tentativas de mudança se repetem sem alcançar o que você precisa; ou quando a dificuldade envolve outras questões que merecem atenção.

Essas situações não comprovam um diagnóstico, nem permitem concluir que exista um trauma oculto. Em psicoterapia, é possível examinar a relação entre o comportamento, os afetos e a história de vida, considerando também as condições atuais. Procurar uma conversa não exige esgotar todas as tentativas por conta própria.

Esta série termina aqui. O próximo passo não precisa ser amplo: pode ser escolher um espaço que você gostaria de recuperar e observar o que acontece quando tenta.

Se quiser conversar sobre atendimento, as informações estão na área de contato.

Na série Vício em telas: 1. Cérebro e atenção · 2. Design · 3. Custos · 4. Práticas.

Israel Machado é psicólogo clínico em Passo Fundo, RS. CRP 07/43950. Atendimento individual com orientação psicanalítica, presencial e online.

Referências

DEKKER, C. A.; BAUMGARTNER, S. E. Is life brighter when your phone is not? The efficacy of a grayscale smartphone intervention addressing digital well-being. Mobile Media & Communication, v. 12, n. 3, p. 688–708, 2024. Publicação online em 2023. DOI: 10.1177/20501579231212062.

DEKKER, C. A.; BAUMGARTNER, S. E.; SUMTER, S. R.; OHME, J. Beyond the buzz: investigating the effects of a notification-disabling intervention on smartphone behavior and digital well-being. Media Psychology, v. 28, n. 1, p. 162–188, 2025. Publicação online em 2024. DOI: 10.1080/15213269.2024.2334025.

OLSON, J. A. et al. A nudge-based intervention to reduce problematic smartphone use: randomised controlled trial. International Journal of Mental Health and Addiction, v. 21, p. 3842–3864, 2023. Publicação online em 2022. DOI: 10.1007/s11469-022-00826-w.

ZIMMERMANN, L.; SOBOLEV, M. Digital strategies for screen time reduction: a randomized field experiment. Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking, v. 26, n. 1, p. 42–49, 2023. DOI: 10.1089/cyber.2022.0027.

As estratégias foram estudadas em condições e amostras específicas, geralmente por períodos breves. As sugestões de rotina não constituem um protocolo validado de psicoterapia, e a redução do tempo de tela não garante melhora em todos os aspectos da vida.