Tudo quanto penso sobre cinema, mitologia, literatura e teatro parte de uma convicção: estas artes devem servir de espelho e, ao mesmo tempo, de janela. Talvez toda obra de arte seja assim — e talvez este seja o critério, ou um deles, para diferenciar a verdadeira obra de arte de uma imitação de arte. Confesso que Depois da Chuva (Ame Agaru, 1999) guarda muitos significados que para mim permanecem obscuros, e a leitura de algumas críticas confirma essa obscuridade. Mas creio que um ou dois podem ser ditos de Ihei, o samurai, e valer enquanto análise de virtudes necessárias em qualquer tempo — especialmente o nosso.
Para apresentar essas percepções recorro ao simbolismo natural: tomar a natureza como referente e utilizá-la como matriz de intelecções, tal como mencionei no ensaio sobre Ordet (aqui), instrumento capaz de aprofundar a leitura do filme. Dois símbolos celestes bastam. O primeiro é a lua. Todos já tivemos a experiência de caminhar à noite sob sua luz — que adquire um matiz especial se estamos apaixonados — e todos já vimos poesias que unem em um só símbolo amor, lua e interioridade. Há aí um convite ao recolhimento, à interiorização, à observação e fruição dos estados interiores. É por mergulhar em si que o poeta, o músico, o pintor pode retornar e apresentar aos demais aquilo que encontrou; e nesse mergulho não há apenas sentimentos, mas tudo aquilo que habita aquele ser: história de vida, gostos, pensamentos, sonhos, planos, filosofias — tudo que pode ser visto quando se pensa em profundidade. O segundo símbolo é o sol. Basta observar suas características mais gerais — iluminar, fecundar, aquecer e, especialmente, expandir — para reconhecer que essas capacidades solares estão presentes, de forma análoga, em todo homem: iluminar a vida de um filho, esclarecer um acontecimento, aquecer um coração, fecundar uma ideia, produzir vida. A lua convida ao mergulho; o sol, à expansão. Com este par pretendo entrar no filme e avaliar dois aspectos de Ihei.
Antes, a situação. Na história, Ihei, a esposa e viajantes pobres estão presos numa estalagem por causa da chuva e da inundação do rio. A situação é precária e há pouca comida. Percebendo isso, o samurai decide usar suas habilidades com a espada para levantar fundos rapidamente, aceitando a humilhação e a desonra de lutar por dinheiro — prática proibida entre os samurais — para conseguir alimento e bebida para os hóspedes: camponeses, trabalhadores, um velho, uma prostituta. Mais tarde, a descoberta dessa luta por dinheiro é o que faz o senhor feudal local, Lorde Shigeaki, repensar e mudar de ideia sobre contratá-lo como instrutor oficial do clã.
O primeiro aspecto é a bondade de Ihei — e como essa bondade, uma vez transformada em ato, lhe traz problemas, sendo os principais o ódio, a difamação e a incompreensão. Quem já experimentou fazer algo bom e colher em troca sofrimentos e injúrias já deve ter percebido que a bondade precisa estar acompanhada de outras virtudes — coragem, paciência, resiliência —, pois em alguns momentos sua externalização pode ser de fato perigosa. Parece contraditório: o pensamento corrente é o de que quanto mais bondade existir no mundo, melhor, e que o resultado óbvio e natural seria uma espécie de paraíso terrestre. A experiência, contudo, mostra que não é assim, e que aquele que deseja ser bom precisa se preparar para uma certa dose de sofrimento.
Então entra o segundo aspecto. A escolha de Ihei demonstra o desapego ao próprio orgulho em prol do bem-estar dos outros — algo que assume mais ou menos a forma de um clichê: ele faz o que tinha de ser feito. Aqui entra o valor da honra, da ação nobre e do autossacrifício — totalmente consciente e deliberado — em prol do outro. Dito de outro modo, há o exercício pleno e consciente do amor ao próximo. Tal afirmação pode nos elevar a um segundo momento da ação nobre, chegando ao status de cumprimento de um mandamento divino. Sem entrar no aspecto teológico e na tamanha altura e profundidade que ele possui, reforço antes a autoconsciência de quem pratica a ação nobre em detrimento próprio: ação que pode ser escolhida por uma disposição de sofrer em função dela e de se saber capaz de suportar as consequências que ela impõe. O autoconhecimento entra no complemento “como a ti mesmo”, pois evidentemente não é possível amar aquilo que não se conhece.
E aqui o par celeste cumpre sua função. O aspecto solar do filme é o de dar uma noção da altura de que as ações humanas são capazes: ele oferece um modelo que pode ser visto se olharmos para cima. O aspecto lunar, por sua vez, é retratado na necessidade de autoconhecimento para que exista de fato liberdade nas ações — do contrário haveria apenas um aprisionamento em necessidades mais baixas disfarçadas ou, na melhor das hipóteses, misturadas de bondade, nobreza, força. A ação não é invalidada, mas 1) torna-se mais difícil de ser praticada e 2) perde qualidade por estar atravessada por buscas pessoais, ainda que legítimas, não condizentes com o modelo solar. Alimentar um faminto é evidentemente nobre, independente da disposição interior — para o faminto importa que a fome passe. Porém isso não é tudo, uma vez que um perverso pode alimentar para manipular, aprisionar, tirar proveito.
Enfim, entendo que este filme tem uma verticalidade intensa, retratando elementos verdadeiramente infinitos e inesgotáveis. Abordei aqui dois pontos da reta — que não termina jamais — e deixo nesses pontos duas setas, para que cada leitor possa seguir subindo e vendo que há mais para cima, enquanto também desce e busca conhecimento sobre o que há de mais íntimo e profundo em si mesmo. Eis aí, verdadeiramente, uma janela e um espelho.

Cena 1: Ihei e a esposa na estalagem. | Cena 2: Ilei lutando no dojo local.
Enfim, entendo que este filme tem uma verticalidade intensa, retratando elementos verdadeiramente infinitos e inesgotáveis. Abordei aqui dois pontos da reta — que não termina jamais — e deixo nesses pontos duas setas, para que cada leitor possa seguir subindo e vendo que há mais para cima, enquanto também desce e busca conhecimento sobre o que há de mais íntimo e profundo em si mesmo. Eis aí, verdadeiramente, uma janela e um espelho.