Confesso que este filme tem muitos significados que para mim são obscuros, e lendo algumas críticas a respeito confirmo isso. Mas creio que um ou dois possam ser ditos do personagem Ilei, o samurai, e valer a pena enquanto análise útil de virtudes necessárias em qualquer tempo, mas especialmente os atuais.
Essa, aliás, é uma tônica de tudo quanto penso sobre cinema, mitologia, literatura e teatro: estas artes devem servir de espelho e ao mesmo tempo de janela — talvez toda obra de arte seja assim e este seja o critério, ou um deles, para diferenciar uma verdadeira obra de arte de uma imitação de arte. Para apresentar essas percepções pretendo recorrer ao simbolismo natural, quer dizer, pretendo tomar a natureza como referente e utilizá-la como matriz de intelecções, tal como mencionei no ensaio sobre Ordet (aqui), utilizá-la como instrumento capaz de aprofundar a leitura do filme.
Pois bem, todos já tivemos a experiência de caminhar à noite à luz da lua, que adquire um matiz especial se estamos apaixonados. Todos já vimos poesias que unem em um só símbolo amor, lua e interioridade, de modo que há aí um convite ao recolhimento, interiorização, observação e fruição dos sentimentos e estados interiores. É por mergulhar em si que o poeta, o músico, o pintor pode retornar e apresentar aos demais aquilo que encontrou. Nesse mergulho não há apenas sentimentos – raiva, alegria, paixão, frustração — mas tudo aquilo que habita aquele ser: história de vida, gostos, pensamentos, sonhos, planos, impressões, filosofias… tudo que pode ser visto quando se pensa em profundidade. Há também outro elemento celeste que capaz de falar simbolicamente ao espírito humano — o sol — e basta observar suas características mais gerais, como iluminar, fecundar, aquecer e especialmente expandir para reconhecer que essas capacidades solares estão também presentes em todo homem, de forma análoga. Por exemplo, iluminar a vida de um filho, esclarecer um acontecimento, aquecer um coração, fecundar uma ideia, produzir vida. Embora, claro, seja agradável caminhar à beira da praia à luz da lua, geralmente a intenção de uns dias à beira do mar, dias ensolarados, é de alegria, em uma palavras, de expansão e até mesmo dispersão.
Com este par de símbolos celestes pretendo entrar em Depois da Chuva (Ame Agaru, 1999) e avaliar dois aspectos de Ilei, o samurai e personagem principal. O primeiro deles é a bondade dele e como essa bondade, uma vez transformada em ato, lhe traz problemas — sendo os principais o ódio, a difamação e a incompreensão. Se é assim, e se alguém já experimentou isso de fazer algo bom e colher em troca sofrimentos e injúrias, também já deve ter percebido que a bondade precisa estar acompanhada de outras virtudes como coragem, paciência e resiliência, pois em alguns momentos sua externalização pode ser de fato perigosa. Parece um tanto contraditório, pois o pensamento corrente é o de que quanto mais bondade existir no mundo, melhor, e que o resultado óbvio e natural é uma espécie de paraíso terrestre. A experiência, contudo, mostra que não é assim e que aquele que deseja ser bom precisa se preparar para um certa dose de sofrimento.
Então entra um segundo valor. Na história, Ilei, a esposa e viajantes pobres estão presos numa estalagem por causa da chuva e da inundação do rio. A situação é precária e há pouca comida. Percebendo isso, decide usar as habilidades com a espada para levantar fundos rapidamente, aceitando a humilhação e a desonra de lutar por dinheiro (prática proibida entre os samurais) para conseguir alimentos e bebida para os hóspedes: camponeses, trabalhadores, um velho e uma prostituta. Essa escolha demonstra o desapego de Ihei ao próprio orgulho em prol do bem-estar dos outros. Mais tarde, a descoberta dessa luta por dinheiro é o que faz o senhor feudal local (Lord Shigeaki) repensar e mudar de ideia sobre contratá-lo como instrutor oficial do clã.
Há aí algo que assume mais ou menos a forma de um clichê: ele faz o que tinha de ser feito. Aqui entra o valor da honra, da ação nobre e do autossacrifício — totalmente consciente e deliberado — em prol do outro. Dito de outro modo, há o exercício pleno e consciente do amor ao próximo. Tal afirmação pode nos elevar a um segundo momento da ação nobre, chegando ao status de cumprimento de um mandamento divino, o amor ao próximo. Sem entrar no aspecto teológico e no quão profundo ele pode ser, na tamanha altura e profundidade que possui, reforço antes a autoconsciência de quem está fazendo a ação nobre em detrimento próprio, ação que pode ser escolhida por uma disposição de sofrer em função dela e de se saber capaz de suportar as consequências que ela impõe. O autoconhecimento entre no complemento “como a ti mesmo”, pois evidentemente não é possível amar aquilo que não se conhece.
O aspecto solar, por assim dizer, do filme, é o de dar uma noção da altura a que as ações humanas são capazes. Ele oferece um modelo que pode ser visto se olharmos para cima. Ao mesmo tempo, o aspecto lunar (tomado como expliquei no começo) é retratado na necessidade de autoconhecimento para que exista de fato liberdade nas ações, do contrário haveria apenas um aprisionamento em necessidades mais baixas disfarçadas, ou na melhor das hipóteses, misturado de bondade, nobreza, força… A ação não é invalidada, mas 1) é mais difícil de ser praticada e 2) perderá qualidade por estar atravessada por buscas pessoais, ainda que legítimas, mas não condizentes com o modelo solar.
Alimentar um faminto evidentemente é nobre, independente da disposição interior, claro, pois para o faminto importa que a fome passe. Porém isso não é tudo, uma vez que um perverso pode alimentar para manipular, aprisionar, tirar proveito etc.

Cena 1: Ilei e a esposa na estalagem. | Cena 2: Ilei lutando no dojo local.
Enfim, entendo que este filme tem uma verticalidade intensa, retratando elementos verdadeiramente infinitos e inesgotáveis. Abordei aqui dois pontos da reta (que não termina jamais) e deixo nesses pontos duas setas, para que cada leitor possa seguir subindo e vendo que há mais para cima, enquanto também desce e busca conhecimento sobre o que há de mais íntimo e profundo em si mesmo. Eis aí verdadeiramente uma janela e um espelho.